CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Segunda-feira, 4 de Junho de 2012
Que Pátria Teremos?

 

           Como sabemos, Portugal foi o único reino da península ibérica que não foi absorvido por Castela. Diga-se porém, em abono da verdade que, dentre os povos peninsulares, os portugueses não são os que mais se diferenciam dos castelhanos. Estou a pensar, como exemplo, nos Bascos e nos Catalães. Quero com isto dizer que talvez não tivessem sido as razões étnicas o factor preponderante para o separatismo luso.

          Na minha modestíssima opinião há um factor que, no mínimo, fez pesar o prato da balança: o imperialismo da Inglaterra, a maior potencia marítima europeia. Porque um dos principais objectivos dos ingleses  foi sempre bloquear o acesso ao mar aberto por parte das potências continentais, incluindo a Espanha. Objectivo esse conseguido na península com o apoio à separação do reino de Portugal, que ficou na posse das costas mais acessíveis. Mais tarde, em 1740, tal objectivo foi consolidado com a tomada de Gibraltar.

          Recorde-se que, talvez por força dessa estratégia, foram eles que em 1385 e 1640 nos prestaram uma ajuda preciosa para que continuássemos independentes. O que se repetiu na Guerra Peninsular, nos tempos de Bonaparte.

 

          Por outro lado, sendo um país com poucos recursos, numa época em que quem não expandisse o território estava condenado, Portugal encontrou no mar o único caminho para a sua sobrevivência e afirmação.

Deu-se assim início uma epopeia heróica, de vários séculos, com altos e baixos, em que nós nos afirmámos como potencia colonialista. Foi, por assim dizer, o nosso “emprego” durante quatro séculos. O que, convenhamos, até era bem visto e invejado pela maior dos países europeus.

          Mas já que falo de invejas, lembro que os nossos territórios ultramarinos foram alvo de cobiça das outras potências colonialistas. E Portugal sabia-o bem quando entrou na Guerra de 14-18. Fê-lo porque estava ciente que a guerra iria resultar numa nova ordem mundial, com a consequente partilha de África. Se não alinhasse ao lado do vencedor, perderia as colónias.

          Ironicamente, no conflito mundial que se seguiu, Salazar percebeu que, se entrasse na guerra, teria de se submeter  aos interesses de forças mais poderosas e que teria de abrir mão desses territórios. Ao que parece, sabia que a nova ordem mundial resultante da guerra iria impor o fim do colonialismo europeu. Previsão que se veio a confirmar.

          Com efeito, terminado o conflito, as duas únicas potências vencedoras, os EUA e a URSS, determinaram o que já se temia: o fim dos impérios coloniais europeus. Abro aqui um parêntesis para esclarecer que toda a Europa foi derrotada: ingleses, franceses, alemães italianos e por aí fora, incluindo os países que não participaram na guerra.

          É bom de ver que as nossas colónias estavam, a partir daí, condenadas. E acredito que foi nesse ponto que Salazar falhou. Ele sabia que a ameaça se estava a concretizar mas não conseguiu encontrar uma resposta que minimizasse os estragos. Nesse particular, concordo com Fernando Dacosta (meu colega de liceu) que insinua que o ditador acreditava na inevitabilidade de uma 3ª guerra mundial e que daí resultaria uma nova ordem que talvez nos fosse favorável. E enquanto o pau vai e vem...

          Eu entendo o drama de Salazar. Entregar os territórios seria a destruição das bases de sustentação da Pátria tal como ele a entendia e o consequente desmoronamento de toda a estrutura. Provavelmente não quis arcar com as responsabilidades de tão pesada tarefa. Nem de enfrentar os perigos inerentes. Recorreu à guerra, talvez para ganhar tempo, mas a Nação esgotou-se e o resultado está à vista. Perdemos o “emprego” e não sabemos como resolver a questão. A menos que encontremos novos objectivos nacionais que motivem os portugueses, estaremos condenados ao desaparecimento. Na melhor das hipóteses, seremos “dissolvidos” noutras culturas onde ficaremos com o direito de continuar cantar o fado e pouco mais...

 

          Estaremos assim no meio de um nó cego, quase impossível de desatar. Se por um lado, a falta de um rumo a seguir, nos enche de escolhos ­— para quem não sabe para onde quer ir todos os caminhos são bons — , a crise económica colocou-nos às portas do desespero. E, como se tal não bastasse, os índices de natalidade em Portugal são assustadoramente baixos.

          Resta-me deixar no ar uma pergunta, para a qual não encontro resposta: que Pátria teremos daqui a vinte anos?



publicado por Fernando Vouga às 17:04
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8 comentários:
De António Trancoso a 6 de Junho de 2012 às 09:42
Caro Monteiro Vouga
Não sendo bruxo, nem especialista em futurologia, só poderei arriscar um palpite: Daqui a vinte anos, talvez conste como efeméride no epílogo da última edição da História do Mattoso... Amen!


De jorge figueira a 6 de Junho de 2012 às 16:45
É a triste realidade. O conceito de Estado-Nação sofreu já profundas mudanças nos últimos anos relativamente àquilo que eram as Nações Europeias. Sei que é moda bater nos políticos, vou fazê-lo também, não por ser moda, mas apenas porque no pós 25 de Abril ninguém parou para pensar essa e outras questões relativas ao Futuro colectivo. Assinalem-se, raras e honrosas excepções, protagonizadas por António Barreto e poucos mais.


De Fernando Vouga a 7 de Junho de 2012 às 01:22
Caros amigos

Não  tenho dúvidas de que os sucessivos governos pós 25 de Abril andaram (e andam) mais preocupados com a conquista e manutenção do poder  do que com o futuro da Pátria,
Veja-se o exemplo do combate à droga. Ninguém  se atreve a fazer frente aos seus barões e não a legalizam. Tenho a certeza de que os monstruosos proventos dessa economia paralela, isenta de impostos (embora pague "luvas" chorudas) daria para pagar a dívida portuguesa. Mas tal não convém. Nada melhor do que um negócio ilegal para se receber por fora uns dinheirinhos para alimentar as máquinas partidárias.


De ... é giro ! a 7 de Junho de 2012 às 18:17
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís Vaz de Camões
(1524-1580)


De Fernando Vouga a 7 de Junho de 2012 às 21:28
Caro senhor

Este belíssimo soneto de Camões é também muito conhecido pela cacofonia do seu começo. Com efeito, "Alma minha" faz  lembrar "maminha".
E é aí que está o mal que nos aflige: a maminha que a Pátria tem sido para uns quantos oportunistas.


De ... é giro ! a 9 de Junho de 2012 às 16:57

A comparação da "maminha" tem todo o alcance...

A "vaquinha" deu e continua a dar a proteina de base da qual os bons oportunistas se alimentam e que vai assim assegurando a estabilidade "des bons truands"...

...que Pátria teremos daqui a vinte anos?
Aquela para a qual a MAIORIA contribui !


De Fernando Vouga a 9 de Junho de 2012 às 19:48
Caro senhor

Com todo o respeito, julgo que está a fazer confusão. A maioria de que fala não contribui para absolutamente nada. Apenas muda as moscas...


De ... é giro ! a 10 de Junho de 2012 às 15:08

Aqui temos a resposta à sua propria pergunta: - que Pátria teremos daqui a vinte anos?

Se a maioria não contribui para absolutamente nada, como o diz e bem, de que serve a maioria ?

Se a maioria apenas muda as moscas; quem muda o escremento ?

Ha 20 anos que assim é, por isso, dentro de 20 anos - apenas continuaremos a mudar de moscas.

O velho Salazar sabia quem tinha.


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