CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006
Forças Armadas

ABRIR O CÍRCULO


        A minha nota de 26 de Janeiro, cujo título é “Forças Armadas — Do haver ao Existir” destinava-se apenas a chamar a atenção dos leitores para a necessidade de um melhor esclarecimento público sobre problemática ligada à Defesa nacional. Como de costume, essa nota mereceu vários comentários dos quais destaco o que se segue, pelo desafio que a autora me colocou:

       
O círculo fecha-se, portanto, sobre si próprio. É um problema sem solução? Como nunca pensei a sério nisso (e talvez não chegasse a grandes conclusões, se tentasse), gostaria de sugerir, se me permite, que escrevesse um texto sobre as consequências da redução drástica das FA.
Enviado por tikka masala em janeiro 26, 2006 09:47 PM
http://www.insidelookingin.blogspot.com/ 


        Na nota acima referida, e de acordo com a lógica de Miguel Esteves Cardoso, parece que as Forças armadas (FA) não fazem falta nenhuma, pelo menos nos tempos que correm. Mas, na verdade, a aplicação dessa lógica em matérias de defesa é um tanto falaciosa porque, o que está em causa é saber se as FA fazem falta, não só no presente, mas também num futuro mais ou menos próximo.
        Vivemos num mundo instável e perigoso. Basta lembrar as mudanças drásticas originadas pelo 11 de Setembro de 2001. Ou, no caso mais recente, as consequências da publicação de umas quantas caricaturas de pendor anti-islâmico. Tudo se pode alterar com demasiada rapidez e da forma mais imprevista.
        E a guerra aí está. Por enquanto, muito confinada ao Afeganistão e ao Iraque, mas que ameaça alastrar a outras áreas do globo. E ninguém consegue adivinhar quando, onde e com que violência vai acontecer a próxima acção bélica.
        A concretizar-se um conflito generalizado que alastre ao Ocidente (provavelmente não convencional, ou seja, sem uma invasão efectiva dos territórios afectados), é possível que Portugal não sofra ataques significativos. E, neste quadro optimista, poderá até acontecer que nem sequer venhamos a ser chamados a participar em operações militares fora do nosso território. Porém, caber-nos-á sempre a obrigação de manter o nosso país devidamente controlado, em terra, no mar e no ar. Muito resumidamente, teremos, com os nossos próprios meios, que garantir o funcionamento das instituições, a liberdade de circulação, as comunicações, o acesso aos bens essenciais que importamos, etc.. Teremos ainda que dispor de forças suficientes para dissuadir todos os que pretendam efectuar acções violentas de grande envergadura contra o nosso território ou contra os nossos legítimos interesses. Teremos ainda que estar prontos a reagir a eventuais mudanças significativas no quadro da guerra em curso, com meios de resposta minimamente adequados.
        Sendo assim, é mais que evidente, que num quadro de guerra generalizada, mesmo que de fraca intensidade, não podemos contar que os outros nos venham salvar, se tal for necessário. Teremos que nos bastar a nós próprios.
        Passando agora a responder à dúvida da tikka masala, é lógico que as FA, como qualquer organização, têm que ter uma dimensão mínima, uma espécie de “massa crítica” que, se for reduzida para além do aceitável, compromete toda a eficácia do sistema de defesa. Em teoria, o tamanho de umas FA depende basicamente da identificação daquilo que há a defender e da avaliação das ameaças credíveis. Na prática, depende também de limitações orçamentais. E, quanto maior for a diferença entre o efectivo necessário e o economicamente possível, maior é o risco que todos corremos.
        Nesta conformidade, penso que a situação actual é preocupante. Julgo que já se chegou a um ponto em que os efectivos das forças operacionais, efectivamente prontas para o combate, já são demasiado reduzidos para serem eficazes. E diminutas em relação às estruturas de comando, controlo, apoio táctico e logístico necessárias ao seu funcionamento, o que é antieconómico.
        Mas, o que não deixa de ser curioso é que, para lá dos inconvenientes das poupanças, o poder político persiste em destruir o pouco que resta do moral das tropas a quem pagam, o que muito contribui para a sua inoperacionalidade. Permanece mudo perante autênticas campanhas de desprestígio (estou a lembrar-me, a título de exemplo, de um deprimente reality show passado numa espécie de quartel militar) e nada faz em prol da imagem que devem ter todas as FA. O caso da aquisição dos submarinos é paradigmático. Em vez de dizer a verdade e esclarecer devidamente a Nação dos porquês de tal despesa, faz de conta que se viu obrigado a satisfazer as fantasias dos militares, como se eles fossem uma espécie de criancinhas mimadas, a quem se deve dar brinquedos para não chorarem.


Costa Monteiro



publicado por Fernando Vouga às 16:48
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3 comentários:
De Anónimo a 12 de Fevereiro de 2006 às 20:49
Cara tikka. Obrigado pelo seu comentário. Mais uma vez, por seu incentivo, vou escrever uma nota a dar a minha opinião sobre o assunto. deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)


De Anónimo a 12 de Fevereiro de 2006 às 20:30
Caro amigo, muito obrigado por ter aceitado (sim, leitores, este particípio ainda existe!) a minha sugestão. Compreendo as suas explicações, entendo o seu ponto de vista e concordo com tudo o que defende. Contudo, devo dizer que ainda me causa uma certa estranheza que se acredite na capacidade do poder das FA para dissuadir e reprimir acções violentas contra o nosso património, quando, desde o 11 de Setembro de 2001, ficou provado que, a partir de agora, a guerra tem outros contornos e o inimigo já não se combate nem se assusta com os meios convencionais. Sou eu que sou burra ou as coisas não se resumem àquilo que expôs? É ou não verdade que o terrorismo é uma ameaça que ultrapassa o poder das melhores e mais capacitadas FA?tikka masala
</a>
(mailto:traumillabimbi@sapo.pt)


De Anónimo a 9 de Fevereiro de 2006 às 19:16
Tenho por hábito (não só eu, creio que está generalizado) dizer, quando a explicação é excepcionalmente clara e correcta, que melhor, só em Braille. Meu caro, disse tudo o que era necessário para se compreender a questão. Parabéns.Luís Alves de Fraga
</a>
(mailto:luismfraga@netcabo.pt)


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