CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Segunda-feira, 15 de Maio de 2006
Gripe das aves - 2ª parte

Possidónio

(135Ac - 51AC)

 

          A conferência a que me referi na nota anterior teve, como de costume, duas partes: a primeira, que durou cerca de duas horas, foi preenchida pela palestra; a segunda foi reservada às inevitáveis perguntas e respostas.
          É certo que faz parte das regras de etiqueta fazer perguntas ao conferencista mesmo, como foi o caso, quando a apresentação foi muito esclarecedora e suficientemente pormenorizada. É uma forma de manifestar interesse e tornar evidente que se esteve com a devida atenção.
          Porém, é fatal que, após essas perguntas de circunstância, várias pessoas aproveitem o ensejo para botar fala. Quase sempre para abordar casos particulares que só a elas dizem respeito ou para que todos os presentes saibam quão importantes elas são. Depois, as perguntas são como as anedotas, em que cada um quer ser o próximo a contar a sua. E nunca mais se vê luz ao fundo do túnel.
          A hora do almoço aproximava-se à velocidade da luz, o meu esqueleto refilava por todos os lados contra a incómoda cadeira que me caiu em sorte e quase todos os presentes ansiavam pelo fim da sessão. Mas, perante o desespero geral, uma jovem resolveu interpelar o conferencista. Depois de tecer um ror de considerações, a exibir o seu manancial de sapiência, saíu-se com esta: «vou-lhe colocar duas questões».
          Só não explodi de raiva, por respeito aos meus companheiros de infortúnio, que eram muitos. Mas torci-me todo na malfadada cadeira.
          Mas que raio de maneira é esta de falar a nossa língua? Ao dizermos “colocar uma questão” estamos a usar a tradução à letra, quiçá feita por um tradutor de domingo, da expressão francesa poser une question. Ou seja, um galicismo e, ainda por cima, rasca.
          Eu cá diria, lembrando o filósofo grego da figura, que usar tal expressão em vez da cristalina e patriótica “fazer uma pergunta” é mais que pedante, é possidónio!
  
Costa Monteiro


publicado por Fernando Vouga às 15:40
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10 comentários:
De traumilla bimbi a 16 de Maio de 2006 às 23:04
Com todo o respeito e até simpatia por alguém em quem ve revejo, na luta contra a "possidonice" linguística, parece-me que "quase explodir de raiva" por uma expressão dessas é um desperdício de energia. O mais provável é que todos, mesmo nós, que condenamos esses galicismos, anglicismos e companhia, em determinadas expressões, os usemos noutras, sem nos darmos conta disso. Em todo o caso, "colocar uma questão" não é tão aberrante como seria, por exemplo, "posar uma questão"!... Não acha?


De Fernando Vouga a 17 de Maio de 2006 às 00:05
Mas não cheguei a explodir. Mas há que ter em conta que já estava desesperado para ver o fim da conferência.
Claro que há pior. Mas, que diabo, porque havemos de ser tão complicados? Eu diria mesmo mais: tão possidónios?


De traumilla bimbi a 17 de Maio de 2006 às 10:10
Pronto, eu confesso. Talvez a minha reacção se devesse ao facto de eu própria, admito, já ter usado essa expressão. Mas continuo a achar que tenho razão nisto: quem somos nós para condenar uns galicismos, quando usamos outros? (E quem diz galicismos diz anglicismos ou espanholismos) Por exemplo: que é que não diz "há que", que é um espanholismo, "enquanto que", que é um galicismo, ou "standard" e "performance", que são anglicismos?


De Fernando Vouga a 17 de Maio de 2006 às 10:58
Tem razão, minha querida amiga. Não podemos ser fundamentalistas.
Mas cada um de nós tem o seu "inimigo" de estimação. Este é um dos meus preferidos. Talvez porque, a primeira vez que ouvi tal expressão, fosse há anos, no INA em Oeiras, onde eu frequentava um curso de informática. Proferida por alguém a tender fortemente para o possidónio.
C'est la vie...


De tikka masala a 17 de Maio de 2006 às 11:43
Essa das intervenções nas conferências está muito bem apanhada. É mesmo assim, é fatal... há pessoas que devem ir assistir só para terem a sua oportunidade, no fim, de se fazerem ouvir, mesmo quando o que querem dizer não tem nada que ver com o assunto tratado. Mas eu fico sempre a ouvir, quando me podia ir embora nessa altura. Porquê? Acho que é por curiosidade, primeiro. E depois para me regozijar perante a insanidade dos outros. Faz-me pensar que, afinal, até sou uma pessoa equilibrada!


De Fernando Vouga a 17 de Maio de 2006 às 23:30
Olá Tikka. Obrigado pelo comentário.
Um dos problemas de quem escreve ficção é uma certa perda da inocência. Porque, em vez de observar a realidade que nos querem mostrar, observa o que está por detrás dos comportamentos.
Ao ver uma dada pessoa a "colocar uma questão", conclui que o que se passa é um mero jogo. Talvez o mais comum, designado por "O meu é melhor que o teu".
Ou seja, perante uma pergunta anterior, a reacção é: eu vou fazer uma pergunta melhor (ou mais vistosa).
E é por isso que as perguntas, como as anedotas, se prolongam no tempo.
Curioso, não?


De tikka masala a 18 de Maio de 2006 às 10:15
Talvez seja uma variante moderna dos inúmeros rituais que visam a aceitação social do iniciado. Quem faz perguntas pertinentes é bem visto, socialmente, é aceite num grupo ou numa elite, o que, consequentemente, contribui para a sua auto-estima. No fundo, andamos todos a fazer coisas que nos permitam integrarmo-nos na sociedade, porque, no fundo, no fundo, nos sentimos uns aliens!


De Fernando Vouga a 18 de Maio de 2006 às 17:24
O pior é que há demasiados modelos de sociedade. E nem sempre os mais badalados são os melhores...
Keep a low profile!


De maremoto a 26 de Maio de 2006 às 19:19
Vou começar a ser possidónio.
Bem, às vezes não, vou continuar a "colocar questões" como quem coloca uma cadeira no terraço para apanhar sol ou coloca o chapeú na cabeça (que como se sabe há muitos- chapeús, claro!)
Cumprimentos


De Fernando Vouga a 29 de Maio de 2006 às 22:41
Tem toda a razão. É que "colocar" tem uma conotação espacial. Significa "pôr junto", o mesmo que "pousar".
O que daria a expressão: "Vou-lhe pousar uma questão" (mais possidónia ainda!).
Coloca-se uma vírgula, mas não se coloca uma questão. Por outro lado, "questão", embora sinónimo de "pergunta" é mais adequada à linguagem judicial.


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