CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Domingo, 29 de Janeiro de 2006
Casamento

UMA BOLA DE NEVE?


        Até há meia dúzia de décadas, na cultura europeia, o casamento (aqui considerado no seu sentido lato) só podia ser feito entre um homem e uma mulher, porque era visto como uma instituição primordialmente destinada à procriação e à consequente educação dos filhos. De tal forma, que a Igreja Católica (IC), que é contra o divórcio, com base no seu direito canónico, pode anular um casamento, caso se prove que um dos cônjuges não tenciona ter filhos. Porém, essa mesma IC nunca levantou qualquer objecção ao casamento de idosos sem qualquer hipótese de procriar. O que implicitamente significa que, de certo modo, reconhece que um casamento válido segundo os seus critérios pode, na prática, ter outras finalidades para lá da propagação da espécie.
        Hoje em dia, em vastas regiões do globo, mormente naquelas em que a cultura europeia exerceu uma grande influência, a função procriadora do casamento quase que mudou para segundo plano. Estando a nossa sociedade mais virada para o bem estar do que para qualquer forma de sacrifício, é natural que o casamento de hoje esteja mais vocacionado para a afectividade e o prazer. Nessa conformidade, não se pode estranhar que dois homens ou duas mulheres queiram casar. De papel passado e tudo, o que já é possível em vários países.
        Parece portanto óbvio que o próximo passo seja a celebração de casamentos com mais de duas pessoas, oficializando-se assim muitas das uniões múltiplas que existem por esse mundo fora. As combinações possíveis passam a ser ilimitadas o que, a título de exemplo, poderá significar a união de vários homens com várias mulheres. Modalidade esta capaz de cumprir ainda a finalidade procriadora do matrimónio. Restará saber, neste caso, qual o estatuto dos filhos que venham a nascer e quem é pai de quem.
        Estando fora do propósito desta nota entrar em considerações de ordem moral, penso que não se pode ficar indiferente à evolução que está a sofrer o conceito de casamento. Uma instituição que, com todos os seus defeitos, foi durante muitos séculos o alicerce do nosso modelo de sociedade e que, neste estado de coisas, se poderá estar a transformar em algo muito diferente, ou mesmo a desaparecer.
        Sem pretender ser alarmista, não posso deixar de lançar um alerta para as eventuais as implicações de uma mudança tão radical na sociedade do futuro. O que se está a passar é uma espécie de bola de neve, que se pode tornar incontrolável. E o que está em causa, o futuro das gerações vindouras, dá que pensar…


Costa Monteiro



publicado por Fernando Vouga às 18:17
link do post | comentar | favorito
|

8 comentários:
De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 23:06
Parece que já cheguei tarde a este debate... e ainda bem! Porque neste blog, os comentários são tão interessantes como os artigos! Parabéns a todos, pelos seus esclarecidos pontos de vista. Gostaria apenas de acrescentar que li no jornal Público de sábado, dia 12, um interessante artigo (escrito por um homossexual) sobre o mesmo assunto e fiquei a pensar... "como reagiria Costa Monteiro a este texto?"traumilla
(http://www.blogarecagente.blogs.sapo.pt)
(mailto:traumillabimbi@sapo.pt)


De Anónimo a 2 de Fevereiro de 2006 às 20:24
Caro Fraga. Está autorizado a usar o "meu" espaço sempre que quiser. O prazer é todo meu.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)


De Anónimo a 2 de Fevereiro de 2006 às 09:53
Olhando o problema com as «lentes» do antropólogo eu diria que toda esta questão é meramente cultural e, assim sendo, resulta do confronto entre o conservadorismo e a inovação social, porque a própria religião é um segmento de cultura. Claro que há «valores» sociais que ditam os comportamentos-norma; um deles é de carácter económico. Vejamos. O acasalamento (donde deriva o conceito de casar) tem como consequência a procriação. Ora, quando os bens materiais têm de ser passados do progenitor para o descendente, é necessário saber-se quem é aquele. Isso condicionou o comportamento social. Assim, muita da resistência à mudança resulta ainda de razões económicas. Entre certas tribos ameríndias o homem com desvio comportamental sexual não era condenado pela sociedade; a condenação recaía sobre aquele que «acasalava» com ele. Porquê? Simples. É que, entre eles, competia à mulher os trabalhos agrícolas e ao homem a caça. Assim sendo, aquele que se aproveitava de ter um(a) companheira(o) mais forte do que o comum (no caso, o homem com desvio sexual) beneficiava em relação àqueles que escolhiam mulheres! Assim, pode afirmar-se, sem margem para erros, que as diferenças nas sociedades - e as lutas que delas resultam - são meramente de natureza cultural. Quem estuda Antropologia ou Sociologia para fazer investigação séria, passa a sentir que o Homem é um só e as culturas são múltiplas! Desculpe o espaço ocupado. Luís Alves de Fraga
</a>
(mailto:luismfraga@netcabo.pt)


De Anónimo a 30 de Janeiro de 2006 às 17:37
Cara IOL. Eu diria o mesmo, mas de forma diferente: as resistências à mudança são de ordem moral e religiosa.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.ptg)


De Anónimo a 30 de Janeiro de 2006 às 17:00
O problema de base é essencialmente moral.
O que a sociedade civil quer é que uma familia que não seja constituida segundo os parametros ditos "normais", vulgo homem mulher, tenham os mesmos direitos e obrigações legais que aquelas pessoas que se uniram pela instituição casamento,ou seja, de papel passado. Hoje em dia o estado já reconheceu que as uniões de facto,entre um homem e uma mulher, caso os sujeitos o queiram, podem usufruir dos mesmos direitos que os legalmente casados.
Porque ficaram as outras familias mulher/mulher e homem /homem, e outras formas de organização familiar de fora?
Tempos houve em que uma mãe solteira era apontada pela sociedade. Hoje já se aceita esta forma de familia. Será esta uma familia "normal"? O que a distingue, em termos de usufruir dos mesmos direitos estatais, de uma qualquer outra familia que tem por base pessoas do mesmo sexo ou várias de diversos sexos? Quanto a mim nada. Portanto é tudo uma questão moral.



iol
</a>
(mailto:iol@sapo.pt)


De Anónimo a 30 de Janeiro de 2006 às 12:19
Caríssima IOL. Foi um prazer ler o seu oportuno comentário. Nesta nota, tive o cuidado de evitar considerações de ordem moral ou religiosa (sou ateu). Nem tão pouco enveredar pelo catastrofismo. No que respeita ao casamento, a adopção de conceitos novos e a rejeição de preconceitos velhos vai certamente provocar alterações, quiçá rápidas de mais, na estrutura da sociedade. Alterações essas que devem ser pensadas, para evitar erros e acautelar direitos. Porque se deve prevenir em vez de remediar. Só para lhe dar um exemplo, a legalização da prostituição na Alemanha criou problemas não previstos. Uma mulher está em risco de deixar de receber o subsídio de desemprego, porque recusou trabalhar numa casa de prostituição. Porque alguém se esqueceu de criar, em paralelo com essa legalização, o estatuto de objecção de consciência. Pensar nunca fez mal a ninguém.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)


De Anónimo a 30 de Janeiro de 2006 às 10:00
Não prevejo grandes males para a humanidade se o conceito de casamento se alterar. Com certeza o problema está no vocábulo utilizado, mas se o problema for esse arranja-se outra palavra para encaixar esta nova realidade.
Mudam-se os tempos mudam-se as vontades e nem por isso a humanidade piorou, não há que temer a mudança.
Houve tantas alterações nos sistemas organizacionais ao longo dos tempos, por exemplo no acesso das mulheres a certas profissões, no seu direito ao voto, de poderem conduzir um carro, nos direitos dos homessexuais e a tantas outras coisas que daí não resultou qualquer estrago, antes pelo contrário. O problema a meu vêr, está nas pessoas, que sob a capa de uma determinada religião tentam transpor essas ideias para a sociedade civil. As religiões tiveram origem num tempo distante e tal como o PCP estagnaram, não acompanharam a evolução das mentalidades. Esqueçamos pois o que elas dizem e os seus dogmas e avancemos sem medo para novas formas de organização e de "casamentos". Venha elas que todos nós estamos ansiosos por as receber e as entender. Não aos tabus. Todos diferentes todos iguais.iol
</a>
(mailto:iol@sapo.pt)


De Anónimo a 29 de Janeiro de 2006 às 19:33
Nem sei bem o que diga... Mas é verdade, dá que pensar!Dulce
(http://mimoemaresia.blogspot.com)
(mailto:luzluzluz4@hotmail.com)


Comentar post

gse_multipart60608.jpg Tomates.jpg Santana Lamego
pesquisar
 
Setembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


Notas recentes

Dúvidas

Quando fala a ignorância....

Não será com mel que se a...

A nega de Temer

Lamego Monumental

A arte de distorcer

Uma questão de padrinho

Ele há cada alarve!

Culinária Gourmet

Convite

Favoritos

Deixem os amigos em paz

Para onde vais, América?

Arquivos
Tags

todas as tags

Blogs amigos
Mais sobre mim
GALERIA FOTOGRÁFICA
Xangai
Nepal
Brasil
Praga
Visitas
free web counter
blogs SAPO
subscrever feeds