CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Sexta-feira, 22 de Setembro de 2006
Memórias dos States

903, Second Avenue, Leavenworth, Kansas

 

  DINHEIRO MACACO?

          Já passava da meia-noite quando cheguei a casa. Morava então no nº 903 da Second Avenue da pequena cidade de Leavenworth, no estado do Kansas. Na altura, em 1983, encontrava-me a frequentar num College um curso de um ano, muito exigente em matéria de trabalho e estudo e também muito exigente em eventos sociais. Com cerca de cinquenta países representados, os jantares, formais e informais, os cocktail parties os piqueniques, os beberetes, eram quase diários e roubavam-nos tempo precioso para trabalhar. Se nos primeiros tempos esse convívio social era agradável e interessante, no final tornou-se um enorme pesadelo.
          Nessa noite sentia-me particularmente estafado. À fadiga de oito horas de aulas, somou-se uma festa que durou até demasiado tarde. Muito mais do que era habitual já que, por norma, não se ultrapassavam as 10 horas da noite. Mas, ao abrir a garagem, notei que algo estranho se passava. A arca congeladora estava aberta e, no chão, encontravam-se algumas jóias da minha mulher. Ao entrar em casa deparei com um espectáculo deprimente. Tudo fora revolvido e muitos dos nossos haveres estavam espalhados por todo o lado. Feito um balanço inicial, desapareceu o televisor, três máquinas fotográficas — quem me mandou a mim ter tantas — e algum dinheiro em dólares.
          É difícil de descrever o que se sente quando vermos a nossa casa devassada e ficamos sem alguns dos nossos pertences. À sensação de insegurança, soma-se o desespero e a raiva. Aquilo não se faz!
          Por fim, ao verificar um roupeiro, encontrei, por debaixo da roupa amontoada, a totalidade do dinheiro português que lá tinha (que não era muito). Não faltava um tostão.
          Mas essa circunstância, à primeira vista feliz, tinha por detrás o seu lado negro. As minhas ricas notas de conto tinham sido rejeitadas, desprezadas, direi mesmo, vilipendiadas!… Senti-me esmagado. A viver num dos maiores e mais poderosos países do mundo, dei-me conta de quão pequeno e frágil era o nosso. Ao ponto de nem os gatunos americanos quererem o seu dinheiro.
 


publicado por Fernando Vouga às 16:43
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4 comentários:
De traumilla bimbi a 22 de Setembro de 2006 às 22:11
Deve ser uma sensação horrível, essa de chegar a casa e ter tudo revirado. Mas sei de pessoas que viveram uma situação ainda pior, julgo eu: acordaram e perceberam que os ladrões tinham estado em casa enquanto eles dormiam. É de arrepiar! Quanto ao dinheiro português, não me admira que o desprezassem os americanos... mas eles também desprezam coisas importantes, como o Protocolo de Kioto!


De Dulce a 25 de Setembro de 2006 às 01:15
É pá, eu não diria melhor!


De António Viriato a 24 de Setembro de 2006 às 19:11
Meu Caro Amigo Costa Monteiro,

Julgo que entendi o seu ponto de vista principal : o orgulho ferido de cidadão português, agravando a revolta pelo desmando ocorrido.
Permita-me duas observações :

Primeira : o aparente desdém dos meliantes pela moeda portuguesa, para além de uma pragmática avaliação da riqueza disponível ante seus ávidos olhos, provavelmente, derivaria também da colossal incultura geral americana, relativa a tudo o que represente o mundo extra-americano, por maioria de razão, em relação a qualquer coisa que identificasse um pequeno país, daquela Península Ibérica, terra de touros, da festa brava, que os americanos, em grande parte, conhecem apenas pelo peculiar interesse que lhe votou o seu excessivamente louvado escritor, Ernest Hemingway.

Segunda observação : ela, a avaliação, não seria assim tão anómala, porque radicava naquela mesma e comezinha razão por que nós, portugueses, chamávamos «dinheiro macua» às notas moçambicanas, naquele período imediatamente anterior à independência desse território ultramarino, quando fazíamos as nossas contas de conversão monetária, com os «monhés» cambistas, que então percorriam Moçambique de Sul para Norte, à cata de dinheiro nobre.

«Dinheiro macaco» ou «dinheiro macua», a mesma sobranceria, afinal !

Bom apontamento memorialístico.

Um abraço,

AV_Lisboa, 24-09-2006


De tron a 26 de Setembro de 2006 às 14:26
mas o primeiro ministro de portugal gasta mais do que o salário do presidente americano em telemóvel


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