CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Domingo, 1 de Outubro de 2006
Madeirices
É anedota mas… [1]
 
 
          O pobre homem, às portas da morte, estava irredutível. Queria, nem mais nem menos, naturalizar-se continental. Por mais que tentassem fazê-lo mudar de ideias, mais ele persistia no intento.
          — Mas pai, isso não faz sentido — diziam-lhe os filhos quase em coro —. Tal coisa não está prevista na lei. Ser continental ou madeirense nem sequer consta nos registos do nascimento. Isso nem se sabe bem o que quer dizer. Será que uma criança nascida na Madeira, só porque a mãe estava cá no dia do nascimento é madeirense? Será que, ao contrário, uma criança filha de pais madeirenses ao nascer no Continente deixa de ser madeirense? Será que uma criança filha de pais continentais, nascida no Continente, mas que vive na Madeira desde a infância não é madeirense?
          — Já vos disse — insistia o velho irritado —, quero um papel oficial que declare, preto no branco, que daqui para diante eu sou continental.
            Não havia nada a fazer. Desesperados, os filhos contactaram um amigo que trabalhava no Registo Civil, para ver se era possível fazer qualquer coisa. Não foi fácil mas, ao fim de uma boa mariscada na Marina do Funchal, o homem acabou por ceder. Mas com o compromisso solene de o documento lhe ser devolvido imediatamente após da morte do pai.
          — Pronto pai, aqui está uma certidão do Registo Civil. A partir de agora o pai deixa de ser madeirense e passa a ser continental.
          O velho, comovido até às lágrimas, pediu os óculos para examinar o papel. Não havia dúvidas era um papel oficial, com selo branco e tudo.
          — Obrigado, meus filhos. Não queria morrer sem fazer isto.
          — Mas, já agora, gostaríamos de saber por que razão o pai tomou esta decisão. O senhor sempre detestou os continentais, chamava-lhes nomes, declarava-os culpados de todas as desgraças que por cá aconteciam…
          — Ora aí está, detesto-os de morte. E assim, quando eu morrer, sempre vai haver um continental a menos…
 


[1] Inspirada numa velha anedota belga


publicado por Fernando Vouga às 22:10
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10 comentários:
De antonio.trancoso@netmadeira.com a 1 de Outubro de 2006 às 23:59
Caro Fernando Vouga
A brincar, a brincar...para além do sabido... dizem-se coisas muito sérias.
Tal como ao moribundo da anedota também a mim já me apeteceu, por idênticas razões e por indirecta vergonha, candidatar-me a membro da Liga e da Federação Portuguesas de Futebol, a reconverter-me à religião a que, em criança, por transmissão familiar fui obrigado, a inscrever-me no clube dos netinhos e, por extensão, na sua "famosa e vicentina" tropa de choque, a testemunhar, sob juramento, da seriedade da classe política em geral e, para não me tornar exaustivamente maçador, gostaria de contar com a flexibilidade benevolente do tal funcionário do Registo Civil para substituir o tradicional sacerdote, e, em vez da Extrema Unção me altere o nome para.. AJ Jardim.


De António Viriato a 2 de Outubro de 2006 às 00:30
Meu Caro Amigo Costa Monteiro,

A anedota aponta-nos o absurdo a que nos pode conduzir um ódio vesgo.

No caso do propalado sentimento anti-continental dos madeirenses, julgo que tudo não passará de uma mais que exacerbada acção do bronco caciquismo local, tal como terá sucedido, no passado, nos Açores.

Quando por lá andei, no velho BII 18, dos Arrifes, nada desse sentimento supostamente hostil aos Continentais encontrei, mas apenas algum natural ciúme dos êxitos amorosos destes com as moças namoradeiras desse formoso Arquipélago.

De resto, certo tipo de animosidade incentivada por conhecidos caciques de fraca consciência cívica, há muito que deveria ter sido combatido de forma legal.

Ninguém pode apelar ao ódio, nem à separação de parcelas do território nacional, sem ficar sujeito ao jugo da Lei ou assim deveria acontecer numa qualquer República que a si mesma se prezasse, mais do que à fútil retórica com que tem iludido este corrosivo problema criado por um certo caciquismo madeirense.

Um abraço.


De Fernando Vouga a 2 de Outubro de 2006 às 14:11
Caros amigos. Obrigado pelos vossos comentários.
Claro que aqui há mais que ironia. Já há uma ponta de escárnio. Porque isto de colocar portugueses contra portugueses, para lá de ser de péssimo gosto, é perigoso e quem se vai lixar é sempre o mexilhão (daqui, porque o outro assobia para o lado).
Por outro lado, fazer crer cá dentro que se é mais igual que os outros, só na ficção de Orwell . Mas tenho a certeza de que o bom senso prevalecerá e que os porcos nunca triunfarão.


De iol a 2 de Outubro de 2006 às 16:24
Este texto fez-me lembra uma anedota que circulou na net de um ferrenho benfiquista que antes de morrer se filiou no no Sporting.
Assim desaparecia mais um lagarto.




De António José Trancoso a 2 de Outubro de 2006 às 17:06
Iol
Não havia necessidade...


De tron a 3 de Outubro de 2006 às 20:26
bem metida, será que o para-fascista sócrates quer ser madeirense ?


De Luís Alves de Fraga a 4 de Outubro de 2006 às 09:30
Meu Caro Vouga,
Elegante maneira de ir dizendo verdades que só poucos madeirenses as dizem e só são possíveis de afirmar quando se é continental e não se depende dos favores do Governo daí.
Num pequeno paraíso deixado pela Natureza no Atlântico a «democracia madeirense» é um escarro no mar azul da verdadeira pluralidade de opiniões.
Como tal é possível, continua a ser para mim, neste primeiro lustro do século XXI, um mistério quase insondável, que um querido Amigo daí natural me tenta explicar invocando razões que a minha mente se recusa a compreender. E não é que ele partilhe das simpatias do Poder instituído! Bem pelo contrário. É um Homem lúcido. O defeito é meu.
Felizmente, existe um Fernando Vouga para, com uma subtileza graciosa, ir chamando a atenção para esse «mistério» político-social.


De Manuel a 4 de Outubro de 2006 às 19:24
Uma visita que deixou sorridente. E é bom sorrir. Alivia o espírito, assim como apreciar as lindas paisagens da Madeira. Que tranquilidade nos transmitem.
Bem, certamente que o homem morreu em paz. Já o ditado dizia 'VOZES DE BURRO NÃO CHEGAM AO CÉU'.
Ah, um abraço para todos os madeirenses, os que estão aí e os que andam espalhadas pelo mundo, já que a sua terra não lhe soube oferecer as condições que mereciam.
E ponham muito adubo no jardim.. As flores querem-se sempre viçosas.
Fiquem bem.
Manuel


De tron a 11 de Outubro de 2006 às 00:59
passa no meu recanto da blogsfera que tenho a versão duma cena dos malucos do riso que vais gostar


De anonimo a 7 de Novembro de 2006 às 00:17
Ka na Madeira,eeles" podem tudo.Coitado do povo madeirense!E so para lembrarares,tu sabias que encerraram o Forte de Sao tiago,para uma festa de casamento de um "sudito' da vice presidencia??Pois foi!!E viva a madeira!!


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