CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006
Madeirices

 

Que estranho vento...

 

          Numa manhã de invernia tive que ir a São Vicente, pequena vila do Norte da Madeira junto à foz de ribeira do mesmo nome. Isolada no fundo de um vale, encaixada entre duas montanhas escarpadas, oferece ao visitante um espectáculo imponente. A vila, já de si pequena, parece minúscula, tal é a desproporção das escarpas que a enquadram. Mas nem por isso deixa de ter uma beleza especial, ao mesmo tempo, acolhedora e agreste.
          Ao chegar ao adro da igreja, no centro da pequena urbe, verifiquei com pasmo que as palmeiras tinham as pontas das folhas queimadas. Fogo não foi com certeza.
          Foi o vento sul, que sopra há mais de uma semana, explicou-me um morador. Como assim? perguntei. Não me consta que haja ventos polares por estas bandas. Nada disso, é a água salgada que o vento transporta que faz secar as folhas.
          Fiquei perplexo. Como é que o vento, vindo dos lados da Ribeira Brava, a trinta quilómetros na costa Sul, sobe a uma altitude de mais de oitocentos metros para atravessar a encumeada e, ao chegar a São Vicente ainda transporta consigo água do mar suficiente para fazer aquilo? Mais um esclarecimento: o vento não vem da Ribeira Brava, mas sim do mar, mesmo ali à beira. Mas o mar fica a Norte, repliquei, como é que o vento é Sul?
          Não valeu a pena insistir. Por mais que chamasse o meu interlocutor à razão, não consegui nada. Dei-me por vencido. Afinal, na Madeira, mais propriamente em São Vicente, há mais um motivo de interesse para o turista que queira pasmar com uma verdadeira maravilha. Um vento Sul que sopra de Norte!
 
Nota: Um amigo meu explicou-me uma possível razão para tão intrigante mistério. Os primeiros colonos que se estabeleceram na Ilha fixaram-se na costa Sul, muito mais acessível e amena. À semelhança do Algarve, o vento que vem do mar sopra do quadrante Sul. E, com o tempo, na Madeira a expresão “vento Sul” passou a significar apenas vento que vem do mar.
  



publicado por Fernando Vouga às 22:53
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8 comentários:
De tron a 7 de Dezembro de 2006 às 23:01
não será o vento do AJJ para empurrar o Sócrates do cimo do Cabo Girão ?


De Fernando Vouga a 7 de Dezembro de 2006 às 23:06
Caro tron
Era bom de mais...


De nuno alves ferreira a 10 de Dezembro de 2006 às 22:36
Ah Grande Fernando. A discrição que fazes deixa-nos de lágrima ao conto do olhocom saudades.
um grande abraço de boas festas para vocês


De Fernando Vouga a 10 de Dezembro de 2006 às 23:30
Olá Nuno e família.
Agradeço e retribuo os votos de Boas Festas.

Saudades a todos e um abração do primo/cunhado.


De O baterista a 11 de Dezembro de 2006 às 15:06
Nunca tive uma explicação científica para o fenómeno mas penso que é isto.
Se reparou, a Costa Norte da Madeira junto a São Vicente é uma enorme escarpa quase na vertical.
O vento vem do Sul por cima das montanhas e quando chega à falécia encontra uma espécie de vácuo e faz um turbilhão aumentando a sua intensidade e, cá em baixo, junto ao mar, já sopra do Norte.
Um fenómeno parecido acontece nas Ilhas Desertas, chamam-lhe os foliões.
Penso que o povo sabe mais do que imaginamos.


De Fernando Vouga a 11 de Dezembro de 2006 às 20:39
Caro Baterista

É possível que tenha razão, mas tenho as minhas dúvidas.
Já ouvi explicações desse tipo por várias vezes, mas nunca vi qualquer confirmação fundamentada na ciência. De qualquer forma, da encumeada até à foz da ribeira vão, em linha recta, uns 7Km, o que quer dizer que a encosta não é assim tão abrupta. Os meus cálculos mais pessimistas dão 12% de inclinação (uma escarpa quase vertical terá uma inclinação próxima de 1.000%). A única maneira de tirar as teimas é ir até à encumeada em dia de "vento Sul" e ver de onde sopra o vento...


De António Viriato a 11 de Dezembro de 2006 às 23:09
Caro Fernando Vouga,

Em último recurso, sempre podemos pedir ao José Hermano Saraiva que aborde a questão num dos seus próximos programas sobre o arquipélago da Madeira, e quanto antes, melhor, não vá este começar a desligar-se da mãe-pátria, deslizando, oceano em fora, a caminho, quem sabe, da costa leste dos EUA...

Um abraço.


De Fernando Vouga a 12 de Dezembro de 2006 às 00:27
Optimista essa hipótese. Eu temo que o movimento, a acontecer, não será na horizontal, de Leste para Oeste. Será na vertical. E de cima para baixo. Tal é o peso de tanta política numa terra tão pequena.


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