CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Acontecia em Nova Iorque

Fotografia retirada da NET

 

 

Joaquim pasmava com aquilo tudo. Já vira nos filmes, mas ao vivo era outra coisa. Havia os sons, os ruídos, os cheiros, os encontrões, o vento gelado de cortar à faca… Nova Iorque era uma cidade diferente. Ali, a meio da Broadway, tudo lhe parecia um mundo irreal, ao mesmo tempo belo e aterrador. Para se olhar o céu, era quase preciso partir o pescoço, tal era a altura dos arranha-céus. À medida que caminhava pela imensa avenida pejada de carros e gente, podia admirar de um lado, o Empire State, do outro, o Chrisler Building e, um pouco mais longe, as torres gémeas do World Trade Center. Isto só para falar dos edifícios mais conhecidos.
De máquina fotográfica em punho, Joaquim não dava descanso ao disparador. Como o rolo de diapositivos coloridos estivesse a chegar ao fim, olhou em redor para ver se vislumbrava uma casa de artigos fotográficos. E foi nessa altura que foi abordado por um homem sorridente e bem parecido que lhe perguntou donde era. Trazia na mão uma espécie de calculadora de bolso com uma antena extensível.
— Não se importa de fazer uma experiência?
— Não estou interessado — disse Joaquim com medo de que se tratasse de um assalto.
— Quer telefonar para a sua casa?
— Aqui no meio da rua?
— Não acredita? Não tenha medo, que é de graça…
Ali havia algo que não batia certo. Tal coisa só era possível nos filmes de James Bond. Além do mais, em Portugal, para se conseguir um telefone — estava-se no final da década de 70 — esperava-se mais de um ano.
— Muito obrigado, mas já telefonei do hotel…
Porém, o americano não se deixou perturbar. Perguntou o número de código do país e o da casa do Joaquim. De seguida, começou a carregar nas teclas. Por fim, passou o telefone para a mão do interlocutor dizendo-lhe para falar para casa.
— És tu mulher?... Estás a ouvir bem? Sim estou em Nova Iorque… Não vais acreditar… Estou a falar da rua por um telefone sem fios… Verdade!
O negócio durou poucos minutos. E só não durou menos porque o preço era exorbitante. Quinhentos dólares por um aparelho tão pequeno não era aceitável. Mas a resistência durou pouco. Em boa verdade, acabava por ser uma pechincha. Poder-se telefonar de qualquer parte do mundo, do trabalho para casa, de dentro do automóvel, enfim, sem qualquer limitação e sem pagar nada, era aliciante. Aquilo era uma maravilha. Ele próprio experimentou aquele pequeno prodígio, a conselho do vendedor, fazendo uma chamada para a filha. E tudo funcionou às mil maravilhas. Um autêntico milagre da ciência.
Cerca de meia hora depois, enquanto caminhava rua abaixo,, Joaquim resolveu falar para o escritório. Já agora, para quê falar do hotel? Mas, para seu desespero, não conseguiu ligação. Tentou mais umas quantas vezes, para vários números, incluindo o do hotel, mas nada! Por sorte, deu com uma montra onde se podiam ver vários telefones semelhantes, sendo alguns da marca do seu. Entrou, e a medo e pediu ajuda a um empregado do balcão.
— Desculpe, mas devo estar a fazer qualquer coisa errada, porque não consigo fazer chamadas com este telefone. Será que me pode ajudar?
— O senhor comprou isso na rua?
— Como é que adivinhou?
— É que essa coisa que tem na mão — esclareceu o empregado com ar de gozo — é apenas a extensão móvel de um telefone fixo. Só trabalha a menos de cem metros dele!


publicado por Fernando Vouga às 23:06
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13 comentários:
De Dulce a 22 de Janeiro de 2007 às 23:32
Ui !!!!


De António José Trancoso a 23 de Janeiro de 2007 às 00:03
Meu Caro Amigo
De facto o antepassado recente do telemóvel era essa extensão de um posto fixo.
Também me admirei quando, pela primeira vez, tive oportunidade de ser confrontado com esse progresso tecnológico; não em NY mas aqui no Funchal,mas, na posse de pessoa séria e amiga.
O nosso "deslumbrado" Joaquim baixou a guarda e acreditou que só em Portugal havia quem "vendesse" vigésimos premiados, carros eléctricos, a ponte sobre o Tejo, o Mosteiro dos Gerónimos, o Teatro de S. Carlos, a poção da eterna juventude,etc.etc.
Um burlão americano?! Era lá possível!!!
Mas foi.
Que lhe sirva de patriótica consolação.


De António Viriato a 23 de Janeiro de 2007 às 00:33
Caro Fernando Vouga,

Mais uma história, ou estória, pitoresca, divertida e verosímil, por acaso, em Nova Iorque.

É geral, como bem sabemos, a vocação humana para a prática da aldrabice, a que agora, a famigerada globalização, apenas vem facilitar e multiplicar a sua oportunidade. E assim nos vamos assemelhando todos pelo vasto Mundo, mais na prática do Mal do que na do Bem, infelizmente.

Mas como travar esta tendência ?

Um abraço.


De Luís Alves de Fraga a 23 de Janeiro de 2007 às 23:20
Moral da estória : vigaristas há-os em todo o lado, por conseguinte, "anjinhos" também.
Ainda um dia teremos de conversar quanto a essa coisa da "mais velha profissão", porque eu julgo que a de vigarista antecedeu todas as outras...


De Paulo sempre a 28 de Janeiro de 2007 às 01:41
Obrigado pela visita.
Abraço
Paulo


De tron a 28 de Janeiro de 2007 às 20:17
http://reporter007.blogs.sapo.pt/396541.html

Espalha por todos e todas que conheceres


De touaqui42 a 29 de Janeiro de 2007 às 13:04
Viva , vi espreitar e gostei do seu posto , vigaros á em todos os lados , também os temos aqui nesta TERRINHA.
Como ex-combatente 64/66 lhe dou as boas vindas ao mundo do bloguistas e posso-lhe afiançar que tem bons bloguistas nesta praça.
Moral á parte , cada um pode ter a sua opinião .
Cuidado com as promessas de viagens para MOÇAMBIQUE ou outro lugar.


De mariavaladas a 31 de Janeiro de 2007 às 01:34
Vim pelo braço de um amigo conhecer o seu Blog!

Gostei da história..... tanto que voltarei cá mais vezes!

Tomei a liberdade de o linkar no meu blog...se houver problema...eu retiro!

Cordialmente
Maria


De mariavaladas a 31 de Janeiro de 2007 às 01:36
Ahhh...esquecia-me de lhe indicar o endereço do meu Blog...

http://blogdaspalavras.blogspot.com

Com as minhas desculpas...
Maria valadas


De mariavaladas a 3 de Fevereiro de 2007 às 04:07
Mais uma das muitas visitas que farei ao seu cantinho....e para desejar um bom fim de semana...

Beijinhos da

Maria


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