CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Terça-feira, 27 de Novembro de 2007
Para quem gosta de ler

 

            Acabei de ler o romance “Rio das Flores” de Miguel Sousa Tavares (MST). Porém, enquanto o lia, deparei com comentários na blogosfera situados em campos diametralmente opostos. Enquanto que no blogue “Alma Lusíada” o autor mostrava cepticismo sobre a qualidade da obra, que não tenciona ler, no “Papiro” não se escondia o agrado, ao ponto de a classificar como o melhor livro, de literatura portuguesa, que nos últimos anos li.
            Vamos esquecer as vantagens que um jornalista muito conhecido tem para angariar colaboradores, publicar, publicitar e vender os seus trabalhos. Porque o que aqui me proponho é abordar apenas o romance e não o autor. Assim, começo por reconhecer que a prosa de MST, sendo de leitura agradável, não será propriamente um modelo de estilo. Por exemplo, muitos dos os diálogos não me parecem bem conseguidos. Em regra, não passam de dissertações demasiado extensas, que o autor coloca na boca das personagens.
            Passando ao conteúdo, confesso (apesar da minha má vontade contra MST) que o “Rio das Flores” me despertou um grande interesse. Para lá da saga bem contada de uma família de fidalgos latifundiários do Alentejo, MST transporta-nos, e com grande rigor, à primeira metade do século passado. Época conturbada onde interagem a ditadura salazarista, a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial.
            E é aqui que, a meu ver, reside o mérito deste romance, que o próprio MST classifica de histórico. Por outro lado, subjacente à narrativa, de si cheia de interesse, está um grito de alerta contra as ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda. Grito oportuno quando, no presente, um pouco por todo o lado (Portugal não foge à regra…) estão a surgir tiranetes prontos a vestirem a pele de salvadores messiânicos. E daí, infalivelmente, se quererem perpetuar no poder.
            Não é preciso fazer uma leitura muito profunda para se perceber que MST não gostade ditadores e prefere a democracia, apesar dos enormes escolhos que atravancam o seu caminho. Porque as ditaduras se transformam fatalmente em mecanismos de endeusamento dos palhaços que as lideram, em detrimento da segurança e do bem-estar dos cidadãos. Se as democracias estão sujeitas a falhar, as ditaduras estão condenadas ao fracasso. E, quase sempre, com derramamento de sangue.
            Voltando aos aspectos formais, não posso deixar de referir que o livro proporciona uma leitura muito agradável. Além disso, quem o lê não tem de fazer grande esforço para entender o que está escrito; não se perde no meio de uma miríade de personagens e não tem dificuldade em se situar no espaço nem no tempo, já que MST escolheu desenvolver a sua narrativa de forma encadeada. Os eventos sucedem-se por ordem cronológica. Numa época em que está na moda escrever charadas (que só os intelectuais muito dotados entendem) e, quantas vezes, se pretende agredir a sensibilidade do leitor, escrever algo que se percebe e agrada é, sem margem de dúvidas, um grande acto de coragem.
            Apesar de todos os defeitos que este livro terá para os entendidos, não tenho dúvidas que MST, com este romance (e também com o “Equador”), cativou para a leitura muito mais pessoas do que muitos dos nossos escritores consagrados.
 


publicado por Fernando Vouga às 23:46
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10 comentários:
De maremoto a 29 de Novembro de 2007 às 16:22
Afinal parece que "quase" concorda comigo... pois defeitos tê-los-á, concerteza, mas posso lhe dizer que ando pelas livrarias desde o inicio desta semana à procura de um livro para ler e não encontro (romance, entenda-se). Mesmo daqueles autores desconhecidos, que não são jornalistas, mas que escrevem "melhor do que todos", pois... folheio as primeiras páginas e deixo lá o livro. Nos estrangeiros são tão épicos, tão profundos e tão interessantes, que opto por não comprar.

Pessoalmente sempre fui um pouco "contra" o romance histórico, porque se colocam personagens a falar e a agir, como se estivesemos lá. Diogo Freitras do Amaral escreveu uma peça de teatro com Viriato como personagem...pode-se assim moldar a história ao gosto do nosso gosto.
MST não é isso que faz. Enquadra as personagens de ficção num determinado momento histórico, que corre como cenário, explicando-o.... o que é muito interessante.
Não inventando, mas explicando-o.Serve este ainda como base da ficção onde se desenvolvem as personagens.
Não se perde em "coisas" menores e levanta algumas questões que mereceriam uma ampla discussão: como se exporta carne fresca do Brasil para a Europa, numa época em que não havia frigoroficos? Porque é que os donos das terras têm tanto dinheiro? Como era o estado das estradas em Portugal, na época? Podia-se vir de Estremoz a Lisboa e volta num dia, almoçando no Palace?

A forma de narrar parece-me conseguida e verosemelhante. Se gravassemos a nossa fala e a escrevêsemos iriamos ficar admirados com os disparates que dizemos. Num romance existe uma distancia com a realidade, mas MST parece-me credivel, que é o mais iumportante num romance... a sua credibilidade.

Cumprimentos, que já estou a "chatear", afinal é só uma leitura de Natal.


De Rosa a 9 de Dezembro de 2007 às 19:23
Maremoto. Você escreve com tantos erros que dificilmente encontra um livro à altura do seu gabarito. O nome maremoto assenta-lhe que nem uma luva, não leia por favor.....


De maremoto a 10 de Dezembro de 2007 às 19:49
obrigado, dona Rosa. Agradeço a sua informação. Não, não irei ler, nunca mais, vou continuar a escrever com erros... à altura do meu gabarito. Obrigado. Bem haja.


De maremoto a 11 de Dezembro de 2007 às 20:15
Dona Rosa...ó dona rosa... ligou-me a Margarida Rebelo Pinto a dizer que se a Rosa não se importar ela tem um livro para me oferecer. Posso?.... Obrigado ! Mantenho o meu gabarito de maremoto ( que me assenta que nem uma luva) Obrigado!


De Fernando Vouga a 11 de Dezembro de 2007 às 23:39
Caros amigos Rosa e Maremoto

É claro que se deve escrever a nossa língua o melhor possível. Mas é preciso notar que muitas das vezes os erros de ortografia não passam de distracções ou, como dizem os ingleses de typing errors " ou seja, por má teclagem, digamos assim.
Os escritores, antes de publicarem as suas obras submetem os originais a várias revisões e, mesmo assim, os erros aparecem. Por exemplo, o Vasco Pulido Valente, tão ligeiro a criticar os outros, no seu último ensaio "Ir Prò Maneta" tem erros de ortografia. Apesar de eu não ser revisor de provas, detectei por duas vezes dignatários " em vez de "dignitários" e "desapercebido" em vez de "despercebido". Embora "desapercebido" exista, significa "desprevenido". No contexto, o que se queria dizer era "que não foi notado", ou seja "despercebido".
Todos nós damos erros de ortografia.
Sejamos tolerantes...


De Rosa a 12 de Dezembro de 2007 às 22:09
Dada a superficialidade dos livros da Margarida Rebelo Pinto, está autorizado a ler.


De maremoto a 13 de Dezembro de 2007 às 12:20
Obrigado... eu sabia que ainda havia uma réstea de esperança nesse coração.


De r a 4 de Janeiro de 2008 às 22:12
Está a progredir. A frase parece isenta de erros. Muito bem.


De Rosa a 4 de Janeiro de 2008 às 22:14
Parabéns. A frase está isenta de erros ortográficos. Fez progressos. Bom 2008.


De Luís Alves de Fraga a 8 de Dezembro de 2007 às 23:11
Embora com naturais reticências vou ler, mas só lá para Abril ou Maio... Ando cheio de trabalho.
Um abraço e obrigado pela achega


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