CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011
O novo espelho da Nação

 

          Sempre ouvi dizer que as Forças Armadas eram o espelho da Nação. Porém, independentemente de tal ser ou não verdade, parece que, de uma vez por todas, as coisas mudaram. E de que maneira.

          O texto que a seguir transcrevo, de autora identificada, é esclarecedor. Não sendo meu hábito fazer transcrições — prefiro apresentar os escritos da minha autoria e responsabilidade —, achei por bem abrir aqui uma excepção.

 

 

 

 

Imagem retirada da NET

 

Cavaleiros da Ordem do Infante Dom Henrique

 

Exmo. Sr. Presidente da República, Dr. Aníbal Cavaco Silva,

O meu nome é Catarina Patrício, sou licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, fiz Mestrado em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou doutoranda em Ciências da Comunicação também pela FCSH-UNL, projecto de investigação "Dissuasão Visual: Arte, Cinema, Cronopolítica e Guerra em Directo" distinguido com uma bolsa de doutoramento individual da Fundação para a Ciência e Tecnologia. 

A convite do meu orientador, lecciono uma cadeira numa Universidade. Tenho 30 anos.

Não sinto qualquer orgulho na selecção de futebol nacional. Não fiquei tão pouco impressionada... O futebol é o actual opium do povo que a política subrepticiamente procura sempre exponenciar. A atribuição da condecoração de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique a jogadores de futebol nada tem que ver com "a visão de mundo" (weltanschauung) que Aquele português tinha. A conquista do povo português não é no relvado. Sinto orgulho no meu percurso, tenho trabalhado muito e só agora vejo alguns resultados. Como é que acha que me sinto quando vejo condecorado um jogador de futebol? Depois de tanto trabalho e investimento financeiro em estudos?!! 

Absolutamente indignada.

Sinto orgulho em muitos dos professores que tive, tanto no ensino secundário como no superior. Sinto orgulho em tantos pensadores e teóricos portugueses que Vossa Excelência deveria condecorar. Essas pessoas sim são brilhantes, são um bom exemplo para o país... fizeram-me e ainda fazem querer ser sempre melhor. Tenho orgulho nos meus jovens colegas de doutoramento pela sua persistência nos estudos, um caminho tortuoso cujos resultados jamais são imediatos, isto numa contemporaneidade que sublinha a imediaticidade. Tenho orgulho até em muitos dos meus alunos, que trabalham durante o dia e com afinco estudam à noite....

São tantos os portugueses a condecorar... e o Senhor Presidente da República condecorou com a distinção de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique jogadores de futebol... e que alcançaram o segundo lugar... que exemplo são para a nação? Carros de luxo, vidas repletas de vaidades... que exemplo são?!

Apresento-lhe os meus melhores cumprimentos,



Catarina

 

 

 



publicado por Fernando Vouga às 15:34
link do post | comentar | favorito
|

9 comentários:
De Pedro Nunes a 12 de Setembro de 2011 às 18:08
Os muitas vezes acarinhados "ventos de mudança" também produzem situações como esta, sobretudo quando as lideranças também andam ao sabor dos ventos, das modas e não são capazes de evitar populismos fáceis. De notar o exagero presidencial, tanto mais que esta selecção nacional não é a equipa A, é uma sub-qualquer coisa. Nem que fosse a A. Como diria o outro, futebol, fado e Fátima é que vendem ! Os ventos foram tais que os cifrões (e os votos) se sobrepuseram a outros valores.


De Fernando Vouga a 12 de Setembro de 2011 às 20:53
Caro amigo

Totalmente de acordo. Obrigado


De José a 12 de Setembro de 2011 às 20:52
O `"direito à indignação" está muito bem retratado neste sentido e excelente texto. E quem não se sente, não é filho de boa gente. Mas não deixa de ser sintomático que até agora não tenha sido objecto de qualquer comentário. De onde se conclui que os valores da Pátria estão a ser subalternizados, vítimas de um equívoco lamentável, e que o espelho da Nação ou já não existe ou está perto de uma morte anunciada!...



De Paulo a 12 de Setembro de 2011 às 22:36
Hoje, os valores da Pátria passaram a ser subalternos ao «mundo» do futebol. Afinal ... o futebol é, agora, o 4.º poder.

Abraço


De jorge figueira a 14 de Setembro de 2011 às 13:50
O paradigma em que se vive é totalmente diferente daquele que viviam os Estados no fim da 2ª Guerra mundial.
O conceito e o ritual que envolve tudo aquilo que é o Estado e se mantém impregnado na nossa mente passou.
Desde os USA (o mais poderoso Estado que se conhece) ao nascituro estadinho regional", programado na cabeça de S. Exª o Pres. do GR às 3ªs e 5ªs ( 2ªs , 4ªs e 6ªs faz outras coisas e ao fim de- semana vai come-Ícios ") os media vêm transtornando e transformando os homens públicos. Eles hoje são verdadeiros artistas.
Cavaco não é excepção. Tentou agradar e apresentar como algo de positivo a bagatela futebolística
As questões sérias, como as que estão subjacentes ao texto reproduzido, por esse todo o MUNDÃO DE DEUS (como diriam os brasileiros) são atiradas para debaixo do tapete.
Despeço-me, como há cinquenta anos muitos, então, jovens portugueses, com um: Adeus até ao meu regresso.



De Fernando Vouga a 14 de Setembro de 2011 às 14:33
Caro Jorge

Já agora, e bom referir que o futebol, de conluio com o poder local e a construção civil (esta por muitos considerada a maior máquina de lavagem de dinheiro), movimenta fortunas colossais.
O futebol (tal como a Igreja Católica na Madeira) dá votos e o poder local sabe-o muito bem. Por isso, precisa de uns dinheirinhos por fora, para os clubes da terra comprarem estrelas. E é por isso fazem obras e mais obras, quantas vezes desnecessárias. Porque, com as convenientes derrapagens, são fontes inesgotáveis de dinheiro por debaixo da mesa.
Assim sendo, não será de estranhar que o futebol se tenha tornado um elemento fulcral nas vitórias eleitorais enquanto que os militares só dão despesas e chatices. E diga-se em abono da verdade, que ninguém se dá ao trabalho de explicar para que servem. São um empecilho político.
Há portanto que medalhar essa gente e não os militares ou outros cidadãos esforçados como a autora desta carta.
E os jogadores ficam todos contentes e o pagode aplaude.


De Banana da Madeira a 14 de Setembro de 2011 às 16:12
Só me admira não terem condecorado aquele português que há alguns anos andou a pedalar com uns bifes debaixo do rabo só para conseguir entrar para o Guiness. O que é facto, é que o homem até consta do Guiness mas ao que parece, condecoração, nickles ...e bem ! A vulgarização da concessão de condecorações com certeza que só contribuirá para baixar a sua cotação. No mercado também é assim. Quanto mais produto se injecta, mais o seu valor se vai deteriorando.


De Fernando Vouga a 14 de Setembro de 2011 às 19:06
Caro BM

O seu comentário é muito oportuno e mostra até que ponto estas "distinções" não têm grande significado, para não dizer nenhum.
O PR, em vez de contribuir para o seu prestígio, banalizou-as e qualquer dia vão ser motivo de chacota. Fazem lembrar os títulos nobiliárquicos nos tempos da monarquia. Havia tantos que se dizia: «foge cão que te fazem barão». Ao que o animal respondia: «para onde se já sou visconde?»


De jorge figueira a 14 de Setembro de 2011 às 16:16
Meu Caro Fernando
Subscrevo a sua opinião. A jovem, que fez o favor de transcrever, é, para todos nós, o retrato perfeito do exercício de uma profissão (também os há nos futebolistas) sem mediatismo e com muita dedicação. Todas as profissões têm a sua ética. Tivessem os políticos, nestes trinta anos de democracia, honrado o seu código de ética como fizeram os militares de Abril (provando à saciedade que não buscavam o poder) e não teríamos chegado tão baixo.
A ambição desmedida e as promiscuidades várias, provocadas por quem tem da administração pública a ideia de que tudo se passa como se da sua coutada privada se tratasse não leva a nada de bom. Os resultados estão à vista.


Comentar post

gse_multipart60608.jpg Tomates.jpg Santana Lamego
pesquisar
 
Setembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


Notas recentes

Dúvidas

Quando fala a ignorância....

Não será com mel que se a...

A nega de Temer

Lamego Monumental

A arte de distorcer

Uma questão de padrinho

Ele há cada alarve!

Culinária Gourmet

Convite

Favoritos

Deixem os amigos em paz

Para onde vais, América?

Arquivos
Tags

todas as tags

Blogs amigos
Mais sobre mim
GALERIA FOTOGRÁFICA
Xangai
Nepal
Brasil
Praga
Visitas
free web counter
blogs SAPO
subscrever feeds