CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
Vocação Militar

Imagem retirada da NET 

    

         

             No passado dia 1de Fevereiro, o Ministro da Defesa Nacional, José Pedro Aguiar-Branco, no almoço-debate da Revista Segurança e Defesa, proferiu um curto discurso do qual se salientam as seguintes passagens:

 

          […] Deixem-me ser implacável na objetividade: um militar não é um funcionário público. Não trabalha das nove às seis. Não é um funcionário da CP. Não conta nem cobra os quilómetros que faz ao serviço do país. Não é um professor. Não discute a avaliação que dele é feita.

          Ser militar não é uma profissão como as outras.

          Ser militar não é um emprego como os outros. Ser militar não é sequer carreira com progressão automática ou com as regras que conhecemos lá fora.

          Ser militar é servir o país em armas, por mais duro, por mais trabalhoso, por mais difícil que seja. Ser militar é uma vocação. Que ninguém tenha dúvida alguma sobre isso.

 

          […] “Se algum destes homens não sente a vocação, antes de protestos, manifestações ou conferências de imprensa, precisa de mudar de carreira. Ninguém é obrigado a ficar.”

 

            Palavras “implacáveis na objectividade”, que impressionam, mas totalmente desinseridas da realidade. Se não, vejamos.

            Em Portugal, tal como acontece nos países que optaram pela abolição do Serviço Militar Obrigatório, só entram para as Forças Armadas os jovens provenientes dos estratos mais desfavorecidos. Além do mais, para a maioria deles, “ir para a tropa” é algo desprestigiante e de mau gosto. Facto que é agravado, dado o total desinteresse que os sucessivos governos mostraram pelo prestígio dos militares. Por outras palavras, a suprema honra de morrer pela Pátria fica reservada aos pobres, enquanto os ricos, coitados, terão de se contentar com tachos e mordomias, nomeadamente da política e actividades afins. Nesses termos, falar de vocação militar só pode ser por ignorância ou má fé. Quanto mais não seja, porque isto de vocações tem que se lhe diga: é que tal atributo tem uma estranha tendência para escolher os empregos mais chorudos. E, que me conste, ainda não se viu ninguém vocacionado para cavador de enxada…

            Ora o senhor ministro, não sendo ignorante, está obviamente a explicar com todas as letras que a Condição Militar é um mero expediente para calar os militares, tirando-lhes toda e qualquer capacidade de defesa dos seus legítimos interesses. Esquece-se ainda que, ao retirar direitos, assume automaticamente a obrigação de proteger os visados. Num país em que continua a vigorar o iníquo princípio de quem mais chora mais mama, o dinheiro retirado àqueles que não têm quem os defendam e não se podem manifestar faz muita falta para satisfazer as reivindicações nos sectores mais sensíveis para a economia, como é a CP a que se refere o governante. Nesses termos, o seu discurso não é sério. É um discurso prepotente de um senhor todo boneco e bem instalado na vida a tentar meter medo aos militares.

            Claro que numa terra onde o sucesso se mede pelos milhões ganhos (sem olhar a meios), com o desemprego à espreita e com a crise de valores generalizada, os militares vão jurar todos a pés juntos que estão cheios de vocação até à ponta dos cabelos. Pudera! Mas não tenhamos ilusões, o discurso do senhor ministro entrou-lhes por um ouvido e saiu-lhes pelo outro.



publicado por Fernando Vouga às 21:37
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6 comentários:
De jorge figueira a 5 de Fevereiro de 2012 às 13:22
Vergonha na cara precisa-se, digo eu. É o mínimo com que se pode iniciar um texto de apreciação deste e doutros discursos com que os vários governantes, dos diversos partidos e nos mais diversos sectores,  nos brindam desde 1974. Pertenço a uma geração que para o bem e para o mal, obrigatoriamente, conviveu muito de perto com aquilo que é a razão última da ética militar "dar a vida pela Pátria". Isso é coisa substituída,no quotidiano, pela chico-espertice de conhecer uns Srs. importantes que garantem acesso rápido ao cofre. A vida colectiva está reconduzida a isso. O sr. Min. sabe-o mas cala. Brinca ao Ministros de um Estado-Nação que já não é.
Aponta o Fernando e muito bem a dicotomia que está a cavar-se cada vez mais na sociedade Portuguesa entre pobres e ricos e a busca de um arquétipo de vida. O sonho, ao contrário do poema de Gedeão, já não comanda a vida apenas, ficou o cifrão. Vamos exportar, para já, os desempregados, caso saiamos do euro, seguem-se os outros que não suportam viver com moedas fracas e em país pobretanas. Ser-se jovem e ter objectivos para concretizar no futuro não é coisa que possa estar ao alcance de um português de vinte anos no território do seu País.


De Fernando Vouga a 5 de Fevereiro de 2012 às 21:11

Caro Jorge


Acabei de receber, da parte de um grande amigo de infância, um Mail sobre o assunto. Como homem que vive em Lisboa, perto dos acontecimentos,  e com uma folha de serviços brilhante, tanto em termos operacionais como intelectuais, esse meu amigo e camarada deixou-me positivamente abananado. Afinal a coisa é muito pior do que eu pensava.


Resumindo, no MDN ninguém se entende


Só para lhe dar uma pequena ideia, transcrevo, com a devida vénia e algumas correcções meramente editoriais, uma pequena passagem desse Mail:


Tudo o que tem vindo a ser feito é inventar poleiros para pendurar a meia centena de oficiais generais, as duas centenas de coronéis, o milhar de oficiais superiores e os quase 3 milhares de sargentos além de quadros técnicos em número que um dia destes hei-de contabilizar e difundir. Com tanta gente a atropelar-se para enquadrar 10000 praças, em dezenas de tabancas, resulta a desqualificação dos quadros e a ficção de unidades, subunidades e órgãos de comando e controlo.



De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2012 às 18:30
Raras vezes vi tanta contradição em tão poucas linhas, mas diga-me: - o homem é mesmo ministro ou trata-se de um brincalhão que tirou o curso de eloquência litúrgiga em que se fala e não se diz nada ?
A contradição de tais propósitos é total  e como é que gente desta figura nos quadros da magistratrura de uma Nação dita Soberana ?
E "isto" é ministro ?
Voltaremos forçosamente a Carlyle...



 


De Fernando Vouga a 15 de Fevereiro de 2012 às 16:46
Caro Anónimo

 O que me assusta é ver que, no que concerne à Defesa, ter visto sucessivos ministros (o primeiro foi o Fernando Nogueira) que não fazem ideia nenhuma do que deveriam ser as suas funções. E nenhum escapa.  Um cargo político como este, não deve em princípio ser exercido por militares que, naturalmente, mesmo isentos, têm tendência a puxar a brasa à sua sardinha. Da mesma maneira que não será muito conveniente colocar um médico na Saúde e por aí fora.

Mas o pior é que tenho quase a certeza de que nos outros ministérios acontece o mesmo.
Desgraçadamente, política e governação são coisas diferentes. E os ministros apenas defendem os interesses do seu partido. Mas está mal, porque para ministro é necessária uma pessoa fora do comum, com uma formação geral alargada, muita sabedoria, bom senso e inteligência. Mas na política essa gente não abunda...

 


De jorge figueira a 20 de Fevereiro de 2012 às 21:24
Aos Srs. Min. oriundos, muitos todos deles a área do direito, vêem, nalguns aspectos, o País como um Estado- Nação à maneira do séc.XIX. Isso foi chão que deu uvas. A Soberania tem vindo a ser progressivamente cedida à Europa e, de certo modo, é grave que nós não tivéssemos já passado à condição de Estado Federal. Seriamos um entre muitos, no Estado Federado da Europa. A crise que nos assola seria sobre o Euro, moeda Europeia e não apenas  Grega, Portuguesa ou Irlandesa. Não pressões sobre o Real do Mato Grosso em detrimento do da Baía. Quiseram os Deuses que depois de Delors o pensamento aglutinador europeu tenha sido mandado às malvas.
Tudo isto conjugado com aquilo que o  Fernando refere como desígnios nacionais, coisa que após a Revolução ficámos com a ideia de que  para alguns dirigentes é obter um GPS que dê acesso rápido ao cofre deixa-nos amargurados. Pensar o País como um Todo é esforço excessivo que não rende nada a alguns servidores da coisa pública.
 Todas as profissões têm o seu Código de Conduta. Mal, muito mal, andarão os quem têm a responsabilidade de definir regras para esse exercício e não capazes de o fazer. O império foi. Estamos prestes (assim espero porque se não for será o diabo) a passar a estado-federal, ou algo parecido, trinta e oito anos depois do 25 de Abril é tempo suficiente para sabermos quais os desígnios nacionais(mesmo com as limitações da integração) neste campo específico da Defesa. Assim é que ninguém se entende e ainda mais se agrava quando, demagogicamente, se cria, voluntariamente, a ideia de que o que querem é dinheiro. Talvez convenha lembrar que ao MFA tentaram desmobilizar aumentando vencimentos mas ética da profissão levou a luta por diante       
  


De Fernando Vouga a 20 de Fevereiro de 2012 às 22:55
Caro Jorge

Portugal, como os outros países da UE, enfrenta um grande dilema: a perda de soberania em troca de bem-estar. Mas tudo tem limites.
Eu aqui não aponto soluções. Limito-me a chamar a atenção para o problema, que não deixa de ter uma importância transcendente. Os erros agora cometidos poderão ter consequências imprevisíveis para o futuro de Portugal como país com identidade própria.
Quanto às FA, tentei demonstrar que, na conjuntura actual, servem para muito pouco, para não dizer que não servem para nada. Mesmo assim, não vejo qual é a vantagem em aviltá-las.
Se o Governo acha que deve acabar com as FA, que o faça de uma vez por todas. Mas que o assuma com frontalidade. Caso contrário, deve respeitá-las. No mínimo, não se deve servir da condição militar para espremer os militares até ao tutano, como está a acontecer. É feio e pode dar mau resultado.
Haja seriedade.



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