CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Domingo, 19 de Fevereiro de 2012
Nação e Defesa

 

 

          É preciso que se entenda que as Forças Armadas (FA) são apenas a parte visível de um iceberg complexo que, no seu todo, constitui aquilo a que chamamos Defesa Nacional. E se tal já era verdade do antecedente, é agora ainda mais. Pela simples razão de que, nos países mais evoluídos, as FA existem mais para evitar a guerra do que para a fazer. A resolução de diferendos pela força das armas é cara e de resultados cada vez mais incertos. A pouco e pouco, vão surgindo novos aspectos que se tornam cada vez mais sensíveis na área da Defesa.

          Contudo, é bom ter presente que tal não acontece com as ameaças. Elas continuam a existir, mas tendem a ser resolvidas de forma mais pacífica, com o recurso à diplomacia. Ou seja, numa visão clausewitziana, podemos dizer que hoje a política internacional é a continuação da guerra por outros meios.

          Convém ainda referir que os conflitos, armados ou não, acabam por ser o confronto de duas vontades em que os exércitos, aqui tomados no sentido lato, podem não ser o factor decisivo mesmo quando se recorra ao seu emprego. Porque normalmente (para não dizer quase sempre) quem vence é o lado mais determinado, disposto a empenhar todos os seus recursos, a correr todos os riscos e a sujeitar-se aos maiores sacrifícios. E só assim é que se pode explicar, além de outras, a derrota dos dois exércitos mais poderosos do mundo, o americano e o soviético, nas guerras que travaram no Vietname e no Afeganistão, respectivamente. É que um povo pode ser derrotado nas batalhas, mas acaba por vencer a guerra, se estiver determinado a combater até às últimas consequências.

          Dentro desta ordem de ideias, um povo que não saiba para onde quer ir, que não tenha desígnios nacionais, que não esteja disposto a afirmar-se no contexto internacional, que não se disponha a defender a sua dignidade, os seus valores, os seus legítimos direitos, a sua cultura, as suas tradições, enfim, a sua Pátria, está condenado à partida. E as suas Forças Armadas não servem para nada.

          E é por esta razão que, nos países onde ainda resta um pouco de bom senso, apesar das limitações orçamentais impostas pela actual crise, não consentem que as suas FA sejam menosprezadas ou até humilhadas. Pelo contrário, cuidam e bem da sua imagem. Porque sabem que os exércitos continuam a ser o espelho da Nação e a forma mais visível de mostrar, interna e externamente, que se querem afirmar e que estão dispostos a correr riscos. Mais ainda, sabem que é prioritariamente nos quartéis que se desenvolve um conjunto de princípios e valores aos quais se chama, em termos genéricos, amor à Pátria.

          Mas em Portugal, o desprezo dos políticos pelas FA raia os limites da imbecilidade. Há mais de trinta anos que ninguém, para lá dos militares, se preocupa com a Defesa nos seus múltiplos aspectos. Alguns deles mais importantes do que as próprias FA. Só para dar um exemplo — assustador, diga-se em abono da verdade —, aproveito para referir que Portugal, detentor de um dos piores índices de natalidade a nível mundial, dentro de trinta anos terá uma população completamente descaracterizada. Os portugueses de então não farão a mínima ideia de quem foi Afonso Henriques ou Vasco da Gama. Será algo que não lhes dirá nada. Porque, para eles, Portugal terá vagamente nascido com José Mourinho e Cristiano Ronaldo.

          Ou nem isso.



publicado por Fernando Vouga às 17:29
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5 comentários:
De Fernando Vouga a 21 de Fevereiro de 2012 às 17:51
Por engano, Jorge Figueira colocou este comentário na nota anterior.

 

«De jorge figueira a 20 de Fevereiro de 2012 às 21:24

Aos Srs. Min. oriundos, muitos todos deles a área do direito, vêem, nalguns aspectos, o País como um Estado- Nação à maneira do séc.XIX. Isso foi chão que deu uvas. A Soberania tem vindo a ser progressivamente cedida à Europa e, de certo modo, é grave que nós não tivéssemos já passado à condição de Estado Federal. Seriamos um entre muitos, no Estado Federado da Europa. A crise que nos assola seria sobre o Euro, moeda Europeia e não apenas  Grega, Portuguesa ou Irlandesa. Não pressões sobre o Real do Mato Grosso em detrimento do da Baía. Quiseram os Deuses que depois de Delors o pensamento aglutinador europeu tenha sido mandado às malvas.
Tudo isto conjugado com aquilo que o  Fernando refere como desígnios nacionais, coisa que após a Revolução ficámos com a ideia de que  para alguns dirigentes é obter um GPS que dê acesso rápido ao cofre deixa-nos amargurados. Pensar o País como um Todo é esforço excessivo que não rende nada a alguns servidores da coisa pública.
 Todas as profissões têm o seu Código de Conduta. Mal, muito mal, andarão os quem têm a responsabilidade de definir regras para esse exercício e não capazes de o fazer. O império foi. Estamos prestes (assim espero porque se não for será o diabo) a passar a estado-federal, ou algo parecido, trinta e oito anos depois do 25 de Abril é tempo suficiente para sabermos quais os desígnios nacionais(mesmo com as limitações da integração) neste campo específico da Defesa. Assim é que ninguém se entende e ainda mais se agrava quando, demagogicamente, se cria, voluntariamente, a ideia de que o que querem é dinheiro. Talvez convenha lembrar que ao MFA tentaram desmobilizar aumentando vencimentos mas ética da profissão levou a luta por diante   »   



De Fernando Vouga a 21 de Fevereiro de 2012 às 17:56
 
Caro Jorge

Portugal, como os outros países da UE, enfrenta um grande dilema: a perda de soberania em troca de bem-estar. Mas tudo tem limites e parece-me que  as limitações à soberania nos obrigam a preservar com todas as forças aquilo que ainda nos resta de razões para continuarmos a ser portugueses.
Nesta minha nota não aponto soluções. Limito-me a chamar a atenção para o problema, que não deixa de ter uma importância transcendente. Os erros agora cometidos poderão ter consequências imprevisíveis para o futuro de Portugal como país com identidade própria.
Quanto às FA, tentei demonstrar que, na conjuntura actual, servem para muito pouco, para não dizer que não servem para nada. Mesmo assim, não vejo qual é a vantagem em aviltá-las.
Se o Governo acha que deve acabar com as FA, que o faça de uma vez por todas. Mas que o assuma com frontalidade. Caso contrário, deve respeitá-las. No mínimo, não se deve servir da condição militar para espremer os militares até ao tutano, como está a acontecer. É feio e pode dar mau resultado.
Haja seriedade.



De Anónimo a 22 de Fevereiro de 2012 às 16:41
De facto é feio e poderá dar mau resultado, estou de acordo, mas deixe-me perguntar: - quem assim o consentiu ?
Ou será que ainda acreditamos na revolta dos capitães em 74 ?
Qual prestígio e qual reconhecimento ?
Não há nada de novo, sempre foi assim. 


De Fernando Vouga a 22 de Fevereiro de 2012 às 20:44
Caro anónimo
 
Pergunta, e muito bem, quem consentiu. É algo que não pode ser esquecido.
Mas não foram os militares que, aberto o caminho da democracia, entregaram o poder a quem de direito. Não fizeram como os tristemente célebres coronéis gregos. 
Que fique bem claro que quem consentiu foi o eleitorado.


De Anónimo a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:23
Pois estamos de volta a um já bem velho e conhecido problema; esse do eleitorado e da sua (dele) cultura...
Os militares foram todos traídos em 74 e a revolta dos Capitães portuguêses, foi coisa que nunca existiu na nossa história...
Tudi foi inventado.
A revolta dos Coroneis na Grécia teve só - E DIGO BEM: - SÓ ! - um lado mais legítimo do que a traição feita às FM de Portugal em 74... é que na Grécia a CIA não interferriu (o que não foi o caso em Portugal), na Grécia os Coroneis pegaram na situação e limparam... bem sabemos como tudo acabou, porém, a decisão veio de cima.
Os militares portuguêses não abriram o caminho da democracia; apenas condicionaram algo já decidido... e de longa data, como sabe.
Toda esta fragilidade e toda esta falta de respeito pelas FM vem só e apenas da falta de cultura do eleitor... paísano, camponês, labrêgo, agricultor, tratorista, parolo, ignorante e cujo voto vale tanto como o voto de um  "magistrado"... cujo voto vale o mesmo do que o voto de quem tem razão e pensa... cujo voto é igual ao de qualquer outro valorizado e esforçado cidadão...
Não Amigo, quando o corpo docente decidir de se esforçar; pois teremos gente com a certeza das suas opiniões e com o apoio democrático que merecem.
Cumprimentos. 


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