
Teria eu uns 15 anos de idade quando li pela primeita vez o “GOG”, de Giovanni Papini. O livro fora-me emprestado por um dos meus irmãos mais velhos. Depois, nunca mais o vi em parte alguma, nem à venda. Embora pretendesse adquiri-lo logo que pudesse, nunca o consegui. Mas só agora, com a prestimosa ajuda de um amigo meu, perito em leilões de livros, é que consegui comprá-lo. É usado mas está em bom estado. Voltei a lê-lo de seguida o que, mais uma vez, me deu grande satisfação.
Gog é uma personagem fictícia, um excêntrico multimilionário americano que, aproveitando-se da sua incomensurável fortuna, dá largas à sua imaginação, acabando os seus dias num manicómio particular. E seria aí que entregou ao escritor italiano uma série de textos...
De leitura muito agradável, neste livro de Papini somos tansportados para um mundo visto literalmente do avesso.
Há quem diga que o humorista olha a realidade por um ângulo diferente. Neste ponto de vista, podemos estar em frente de um livro de humor. Mas não nos faz rir, faz-nos pensar.


De súbito, ouve-se um grande PUM na redacção do DN – Madeira. O que será? Foi a mulher da limpeza? Não, o PUM veio duma janela virada a leste.
Feitas de imediato as devidas averiguações, verificou-se que, no Santo da Serra, o general comandante da Zona Militar da Madeira tinha autorizado um civil disparar um tiro de salva. Para o efeito, foi utilizado um sacrossanto, mas obsoleto, canhão do Exército.
Crime, gritaram uns, sacrilégio, choraram outros! Um canhão militar foi conspurcado pelas mãos de um civil!
Mas o mais estranho foi que, o malvado PUM, que costuma a viajar à razão de 340 metros por segundo, demorou meio ano a agredir os tímpanos dos jornalistas. Teve, no entanto, o bom senso de esperar pelo reultados das eleições para, enfim, se fazer ouvir por quem de direito...
Era mais do que claro que a coisa não poderia ficar impune. Há que punir severamente o criminoso, há que lançar o alarme, com direito a parangonas na primeira página.
Com efeito, não há direito que se cometa tal dislate. As tropa pode ceder instalações para apoio a calamidades, fornecer refeições gratuitas às vitimas de incêndios e aluviões, transportar sinistrados, apoiar eventos desportivos, autorizar militares fardados a incorporar procissões e muitas coisas mais em proveito da população. Por outro lado, em Portugal, um governante, depois de descerrar uma lápide, pode perfeitamente largar a bandeira nacional para o chão. Mas um general, autorizar um PUM num torneio de golfe, isso é que não!
Para lá da demora em publicitar o caso (algo muito estranho, já que durante seis meses ninguém se manifestou nem se zangou), muitos dos pormenores envolvidos, para não dizer todos, são também muito estranhos.
Ao contrário da lentidão em se colocarem os factos na comunicação social, a demissão do General foi feita à velocidade da luz. E, mais estranho ainda, parece que já estava na calha um oficial general pronto para calçar os sapatos do defunto. Melhor dizendo, dois oficiais generais. Isto, diga-se de passagem, para comandar uma guarnição que, no seu todo, é inferior à da PSP, para não falar da dos bombeiros.
Estranho também foi a forma como se efectuou a demissão do general com uma folha de serviços brilhante. Nem sequer teve o direito inalienável de se defender. Foi linchado na praça pública. Diga-se em abono da verdade que, tanto quanto julgo saber, o general não infringiu qualquer código, regulamento ou ordem superior. Apenas tomou uma decisão, discutível certamente, mas que, pelos vistos, desagradou às mais altas chefias militares.
Inaceitável foi no entanto o papel algo sinistro desempenhado pelo DN – Madeira. Antes de publicar a notícia, tudo parece indicar que não houve o cuidado de contactar o visado. Por outro lado, a peça publicada não referiu a data do evento (li os textos e tive que consultar o calendário dos torneios do Clube de Golfe do Exército para o saber), o que decerto lhe causaria forte embaraço. Resumindo, tanto alarido por um PUM ocorrido há seis meses é no mínimo inconcebível. Logo...
Por fim, não contente com o mal que causou a um homem digno, permitiu este jornal, no dia 28 de Outubro, que se publicassem duas ilustrações chistosas a denegrir a sua imagem.
Nunca esperei tal comportamento de um jornal que, durante décadas, teve a coragem de enfrentar o todo poderoso Presidente do GR.

Nota: Um erro de ortografia dado por um jornalista não faz mal a ninguém...
Acabei de reler os "Os Mal Amados" de Fernando Dacosta.
Desde há muito que adquiri o hábito de reler os bons livros que tenho na minha modesta bilioteca. Faço-o quase sempre com agrado e este livro não foi excepção.
Fernando Dacosta é um grande jornalista e um grande escritor, pelo que me escuso a tecer comentarios sobre a sua pessoa.
Limito-me a sugerir a sua leitura. Muito útil, agradável e esclarecedora. Não percam.


Por Carlos Matos Gomes
A ameaça de condutores de camiões de combustíveis paralisarem o país assenta em vários falsos pressupostos. Vigarices que tornam a acção injustificável e sem credibilidade.
Os que deturpam a verdade, moldando-a aos seus interesses mesquinhos, ou tripudiam o ordenamento com interpretações tendenciosas, são verdadeiros contrabandistas, mais perigosos do que vulgares falsificadores, porque estes traficam mercadorias e assumem o risco da descoberta, enquanto os outros ofendem os valores sagrados da Justiça e movem-se com total impunidade.”
António Arnaut, in «Ossos do Ofício»

O padre catolico Jean Meslier (1644-1729) foi pároco de uma pequena povoação nas Ardenas francesas. Dedicado aos seus paroquianos, exerceu o seu ministério com rigor e dedicação, colocando-se sempre ao lado dos mais fracos.
Porém, não prescindiu de pensar pela sua cabeça, tendo escrito um livro com as suas conclusões. Livro esse que só deixou que fosse publicado após a sua morte...

O cartel dos enfermeiros
O que tem sido apresentado à opinião pública como uma greve decretada pelos sindicatos de enfermeiros pode ter outras leituras. Os profissionais de enfermagem tanto podem ser vistos como assalariados ou como empresários.
É que alguns (muitos? poucos?) são assalariados no serviço público e simultaneamente são empresários no privado, uns a título individual, outros como patrões de empresas prestadoras de serviços, outros ainda são assalariados no público e no privado.
Assalariados no público e no privado, assalariados no público e patrões no privado, empresários de sociedades anónimas e a título individual, no entanto todos se apresentam perante a opinião pública acolhidos debaixo do manto protector e facilitador de obtenção de reconhecimento público de “sindicatos” e todos invocam as leis do trabalho para justificarem ao “patrão” Estado as suas reivindicações de trabalhadores, de explorados pelo capital! Já quanto ao sector privado, onde são patrões, não há revindicações! Claro.
Ora, estes “sindicatos” onde se reúnem os interesses de patrões e assalariados são típicos do corporativismo! Portugal foi um Estado corporativo até ao 25 de Abril de 74. A contrapartida da consensualização de interesses do trabalho e do capital, arbitrada pelo Estado, é a renúncia à greve ou a sua proibição.
Estas corporações, de facto, sob a máscara de sindicatos, aproveitam-se do estatuto da greve enquanto trabalhadores para obterem lucros patronais! É o dois em um. A Ivone Silva fez uma rábula numa revista em que jogava com esta ambiguidade: segundo as conveniências de umas vezes Olívia Patroa e de outra Olívia Costureira. É esta rábula hipócrita e oportunista que os sindicatos de enfermeiros estão a representar, mas uma rábula macabra, que joga com a saúde e a vida dos cidadãos.
No presente, esta organização corporativa de patrões e assalariados na área da prestação de serviços de enfermagem, que até tem um fundo de maneio de origem anónima (talvez os enfermeiros patrões saibam alguma coisa) apresenta-se ao maior patrão, o Estado (os contribuintes), aquele que paga a base fixa e segura dos seus rendimentos, com a máscara dolorosa dos assalariados reunidos em sindicato para defenderem as suas justas revindicações, constitucionalmente garantidas a trabalhadores por conta de outrem. Chama-se a isto mamar em todas as tetas. É legítimo? É merecedor de consideração e respeito?
Vistos como empresários, os enfermeiros estão a agir em cartel. Sendo que “Cartel é um acordo explícito ou implícito entre empresas para fixação de preços ou cotas de produção, divisão de clientes e de mercados, de atuação coordenada entre os participantes para aumentar os preços dos produtos, obtendo maiores lucros, em prejuízo do bem-estar do consumidor.”
A dita “greve” dos ditos “sindicatos” corresponde a esta definição de cartel. E até à de cambão: isto é, a acção concertada para obterem a compra de determinados bens ao preço definido entre os elementos do cambão.
Não me parece que um governo, independentemente da sua matriz ideológica, deva aceitar negócios propostos por um cartel ou por um grupo de empresários que acertaram entre si um cambão. E toda esta mistificação sob o manto nada diáfano de sindicatos e de sagrados direitos… Isto, mesmo sem considerar que se trata de um bem essencial, a saúde e a vida dos cidadãos.
NB:- Os enfermeiros exigem: Reforma aos 57 anos e um aumento de 400€. Recorde-se que o vencimento na função pública é de: Mínimo de 1 201€ e máximo de 3 364€ e a carga horária 35 horas/semana.
Os enfermeiros negociaram contrato de trabalho no privado (boletim do M. trabalho nº. 26/2018), com as seguintes condições: Vencimento mínimo 985€; vencimento máximo 1 720€ e carga horária 40 horas/semanais
Obviamente, nota-se uma diferença entre uma entidade (pública) e a outra (privada)! Pergunta-se: Porque será, num sector (público) onde têm melhor salário e menos carga horária promovem greve e no privado não?

PRESÉPIO MINIMALISTA
LEMBRETE 12050
O presépio actual
Ficou tão minimalista,
Que mantém só o curral!...
Perdeu-se o resto de vista!...
LEMBRETE 12051
Deixou de ter o Menino,
Por questões de identidade!...
Dar género ao pequenino
Era ilegalidade!...
LEMBRETE 12052
O José e a Maria,
Sendo uns refugiados,
A Direita não queria
Que fossem cá abrigados!...
LEMBRETE 12053
Os Reis Magos são banidos
Por conflitos raciais!...
Também foram removidos
Pelo PAN, os animais!...
LEMBRETE 12054
Quanto ao ouro e à mirra,
Também eles desapareceram!...
Mas neste caso houve birra
Dos banqueiros, que os venderam!...
LEMBRETE 12055
Ficou, assim, reduzido
Ao estábulo natal,
Que irá ser convertido
Em alojamento local!...
17/12/2018 — Autor desconhecido


Edgardo Pacheco 13 de outubro de 2018 às 19:00
Jornal de Negócios
Aos leitores, sugerimos umas conversas durante as próximas feiras de Outubro e Novembro com produtores e enólogos sobre estes assuntos dos mega-descontos. Vão ver que ainda descobrem outras histórias curiosas.
Todos os anos, o ritual repete-se: amigos e conhecidos trazem catálogos das feiras vínicas para eu assinalar as garrafas que considero boas compras. Sucede que, este ano, entre os pedidos e os comentários sobre os inúmeros vinhos de Pias e a abundância de Vinhas Velhas nos rótulos, havia esta pergunta: Vale a pena comprar vinhos com 65% e 70 % de desconto? Que é como quem diz: há algum esquema aqui escondido?
Se gosto de assinalar catálogos, confesso que, na história dos descontos, já me falta paciência para explicar a nublosa dos valores de descontos mais adequados a um souk de Marrocos do que a uma feira na Europa. De maneira que, imaginando que muita gente desconheça o método como se formam alguns destes descontos estratosféricos, tratemos do assunto. Quando me voltarem a fazer perguntas, ofereço uma fotocópia deste artigo. Ou mando o link, pronto.
Todos os grupos de distribuição fazem feiras e campanhas sazonais de promoção de vinho. Mas há campanhas e campanhas. Há grupos que praticam descontos entre os 20% e os 30% (valores normais), outros que vão aos 40% (coisa forçada) e um que chega até aos tais 70% de desconto: o grupo Sonae, dono da marca Continente. É, por razões óbvias, sobre este que nos debruçaremos.
Como se constrói este esquema dos 70%? De forma simples. Os comerciais do Continente chegam a um produtor e - vamos dar um exemplo que resume o espírito do negócio - dizem que precisam de uma nova marca com um preço de venda ao público de, por hipótese, €3,89, e pelo qual pagarão ao viticultor entre €2 e €2,5 (aqui os valores oscilam muito). Mas - cá está o detalhe - exigem que o produtor conceba um vinho que, no imaginário do consumidor, se posicione na faixa dos €13, por exemplo. Como? Com uma garrafa cuidada, um rótulo bem desenhado e um nome estratégico. Se vier com "velha", "manca", "pêra" ou um título nobre (marquês, conde ou visconde), melhor ainda. E, como tais vinhos comprados entre os €2 e os €2,5 dificilmente passariam numa câmara de provadores como Reserva ou Grande Reserva, não há problema. Uns serão Signature e os outros Premium. A cereja em cima do bolo é, sendo possível, juntar-lhe o chavão de Vinhas Velhas. E está feito o embrulho de algumas marcas de vinho Continente.
Em loja, esse vinho que custou entre os €2 e os €2,5 e que ninguém conhece ficará entre uma a duas semanas nos tais €13 (não registamos a margem especulativa nessa altura porque, na realidade, ninguém lhes deita a mão em cima). Passado este tempo, o vinho entra no maravilhoso mundo dos descontos Super Preço - entre os 65% e 70%. Assim, quando um consumidor compra esse tal vinho de €3,89, regista na sua factura um desconto de €9,10. É brutal! E, lá está, vai gabar-se junto dos amigos que fez um grande negócio. Só que - reflictam bem sobre isso, caros leitores -, ele, na realidade, pagou o preço justo por um vinho que, na produção, custou entre os €2 e os €2,5. Cerca de €3,89 é o preço correcto para o vinho em causa. Que não haja dúvidas. Mas, €13, nunca. O valor dos €13 tabelado apenas para preparar o estrondoso desconto dos 65% ou 70% é a armadilha para apanhar consumidores descuidados e deslumbrados com a cultura das promoções. Ponto final.
De resto, como poderia um hipermercado - cujas campanhas de promoção atira sempre para os produtores - ser tão generoso com os seus clientes? E, já agora, como poderiam os produtores viver com a oferta de descontos da ordem dos 65% ou 70%? A resposta é simples: porque tais vinhos nunca foram pagos em conformidade com o tal target dos €13.
Mas o curioso é que esta estratégia agressiva não resiste a um teste simples que qualquer consumidor pode fazer em casa com os amigos. E vamos a outro exemplo concreto. O Alvarinho Jardim Secreto 2017 tem como preço base €12,99 e é produzido para o Continente pela empresa Quintas de Melgaço. Pois bem, o Alvarinho da própria empresa - o QM - está à venda no linear do Continente por €8,99. Ou seja, este vinho histórico é €4 mais barato do que a nova marca que ninguém conhece. Lindo, não é? Mas, se provarmos um e outro, as diferenças são consideráveis. O Jardim Secreto é um branco banal que nem remotamente lembra Alvarinho, mas o QM Alvarinho - sem ser um vinho de encantar - cheira e sabe a Alvarinho. E mais. Na mesma prateleira podemos encontrar um Soalheiro com preço base de €11,99 e um Muros Antigos por €12,67. Provem estes dois Alvarinhos com o Jardim Secreto a €12,99 e vão ouvir as gargalhadas dos amigos a ecoar pela sala. Ou seja, se o leitor comparar o preço base dos tais Signature e Premium com o preço base - em idêntico patamar - das marcas-âncora das casas que deram origem aos tais vinhos Continente, verá que há qualquer coisa que não bate certo. Nem poderia.
Ora, se por um lado não existe nada de ilegal nesta estratégia agressiva do Continente (é só um acordo entre as partes), no plano ético, e no que diz respeito à ligação com os consumidores, não me ocorre outra expressão que não seja a das saudosas rábulas do Raul Solnado: "Malandrice!"
Se, por um lado, tenho a ideia de que quando certos consumidores entram num hipermercado deixam o cérebro no automóvel (ou é isso ou aqueles rectângulos alaranjados dos Super Descontos que emitem um gás que paralisa os nossos neurónios), por outro fico com perguntas para as quais não tenho resposta. Os produtores estarão condenados a alimentar estratégias destas? As comissões vitivinícolas regionais (CVR) não sentem necessidade de dizer qualquer coisinha (as CVR e, já agora, a Autoridade da Concorrência)? Faz sentido as associações de consumidores passarem ao lado deste debate?
Como não sei responder vou, entretanto, beber um copo de tinto Vinha da Coutada Velha 2017, feito no Monte da Ravasqueira que, lá está, por €3,89, não está nada mal. Mesmo. Mas nunca por €13, que é apenas menos €0,49 do que o preço do Vinha das Romãs 2015 da Ravasqueira. Curioso, não?
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Acabei de reler "A Morgadinha dos Canaviais" de Júlio Diniz. Obra literária que li na juventude, mas na qual apenas me interessou pelo enredo. Enfim, pareceu-me uma historieta com o inevitável triângulo amoroso com um final feliz. Estou certo de que nessa altura, passei à frente sem ler muito do que o autor nos quis revelar.
Mas agora tive uma agradável surpresa. Convencido de que iria deixar o livro a meio, acabei por me interessar pela leitura e não perdi uma vírgula sequer. O romance transportou-me a tempos antigos, numa intriga verosímil, muito bem urdida e com personagens — umas redondas e outras planas como convém — credíveis e convicentes. Um autêntico banho perfumado para a mente. Que delícia!
À parte da estória, Júlio Diniz aproveitou por nos revelar, com grande mestria e subtileza, os bons e os maus aspectos da vida no Portugal do Século XIX, tendo como cenário uma remota aldeia do Minho.
E o mais curioso é que a sociedade de então pouco difere, na sua essência, da actual, em que todos nós nos queixamos das habilidades de uma política conduzida por gente interesseira, desonesta, hipócrita, e mentirosa.
Afinal, o mal já vem de longe...
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