Parece que chegou ontem ao fim um dos episódios mais rocambolescos e desastrosos da nossa história política recente. Cavaco Silva, num discurso a roçar o patético, quiçá preocupado com seu desastroso índice de popularidade, explicou aos portugueses que a trapalhada que provocou nestes últimos dias foi uma vitória sua. Porque, qual S. Pedro na corte celestial, abriu as portas do paraíso ao promover o diálogo e entendimento entre governo e oposição. Já que, segundo ele, o consenso entre partidos tem sido a receita de sucesso para os “países europeus de média dimensão”.
Porém, passem as palavras do discurso, o que os portugueses viram foi o seu Presidente dar o dito pelo não dito, tudo voltar à estaca zero e os mercados ficarem ainda mais desconfiados sobre as nossas capacidades de fazer face à crise económica.
Enfim, se até aqui o futuro de Portugal se afigurava negro, este triste acontecimento deixa-nos ainda mais angustiados, porque ficámos a saber que não podemos contar minimamente com o “Presidente de todos os portugueses”. Se por falta de actuação durante muitos anos ele esteve mal, verificou-se que, quando resolve actuar, é ainda pior.
De qualquer forma, espremido o caso até à exaustão, ressaltam dois aspectos que reflectem o pensamento de Cavaco Silva. O que não deixa de ser uma boa notícia, dado que o que se passa na sua cabeça tem sido um mistério esfíngico.
Em primeiro lugar, Cavaco reconhece, e muito bem, que o seu prestígio anda pelas ruas da amargura. De tal forma que, para resolver a crise, se propunha convocar uma figura de “reconhecido prestígio”. Ou seja, reconhece que, apesar de ser Presidente, não está à altura da situação.
Em segundo lugar, ao pretender que o entendimento entre os partidos é bom — vá-se lá saber concretamente de que entendimento se trata —, parece-me que estamos perante uma visão algo enviesada da democracia, onde os que governam deverão ser permanentemente vigiados pelas oposições. Porque, o pior que nos pode acontecer, é a cartelização da política, o que é, no fundo, a proposta de Cavaco.
Não tenhamos ilusões. Com os partidos todos do mesmo lado, há que fugir, porque vamos ser comidos vivos.
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