CONTRA OS ABUSOS DO PODER
VENHAM DONDE VIEREM
Domingo, 31 de Janeiro de 2010
Mudar o sistema...

Não tenhamos ilusões, porque ninguém vai acabar com a corrupção. É um mal que vem de longe e, enquanto houver seres humanos, vai haver quem corrompa e quem seja corrompido.
Porém, o cerne do problema não reside na corrupção em si, mas na dimensão que hoje atingiu. E é aí, nesse factor, que tudo se joga. Já não se trata de um polvo, mas de uma incomensurável pandemia. Maleita que não se combate com os unguentos de cosmética com que os nossos governantes nos pretendem iludir. É preciso atacar as origens, de uma vez por todas. É preciso mudar o sistema.
Não é necessário ser-se um génio da matemática para concluir que a dimensão dessa praga tem a ver com a quantidade de dinheiro sujo de que o crime organizado dispõe actualmente. Porque ninguém compra ninguém com transferências bancárias.
As imagens que aqui se mostram fazem parte de uma série de fotografias que documentam o recheio de uma mansão que pertenceu a um barão da droga. No compartimento que aqui se vê e no resto desta habitação de luxo asiático, à qual não faltava um jardim zoológico e uma extensa colecção de armas douradas, foram apreendidos, em caixotes e em esconderijos, várias toneladas de notas. Isto fora o dinheiro que, decerto, já teria entrado em circulação legal, convenientemente branqueado.
Se pensarmos que cada pequeno maço tem 100 notas, o que perfaz a soma de 10.000 dólares por cada um, podemos concluir que estamos perante dinheiro que dá de sobra para comprar muito boa gente, para alimentar o escândalo dos paraísos fiscais, para fazer com que os responsáveis pelo combate à droga façam vista grossa ao seu tráfico, enfim, para tanta coisa...
É óbvio que o sistema não muda, simplesmente porque não o querem mudar.
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo

O senhor ministro das Finanças declarou que este orçamento é de rigor.
Ah... então os outros não eram!
Pronto, já percebi.
Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
Os Militares e a História Recente

Tem-se notado ultimamente, talvez devido ao agravamento da crise económica, uma animosidade crescente contra as Forças Armadas. Animosidade esta que, cinicamente, os sucessivos Governos vão alimentando com a cumplicidade do silêncio. No fundo, estão a ser transformadas no bode expiatório de todos os males que hoje afligem os estratos sociais menos favorecidos — já que os outros continuam a viver “à tripa forra”. Em traços largos, grita-se por todo o lado que, se não fosse o 25 de Abril de 74 — uma irresponsabilidade e cobardia — hoje viveríamos no paraíso. Que os militares de carreira quebraram o juramento de fidelidade à Pátria, debandando de uma guerra de que tinham medo.
Parece-me assim, oportuno avivar a memória das cabeças mais agitadas, para que passem a apontar as suas setas aos verdadeiros responsáveis pelo descalabro corrupto de que enferma a nossa (des)governação actual.
Embora haja hoje, pasme-se pelo delírio, quem diga que a guerra estava quase ganha, não restam dúvidas de que estava condenada à partida. Basta ver o que se passou no Vietname e se está a passar hoje no Iraque e no Afeganistão. E a maioria os mais altos responsáveis pelo regime salazarista, de mãos dadas com os que mais beneficiavam dele, sabiam-no, ao ponto de baldarem os seus filhos à guerra. Para tal, usavam as suas influências pessoais e as mais torpes artimanhas, como sejam compras de testes aos dactilógrafos, radiografias e exames médicos falsificados, cursos no estrangeiro.
Os militares de carreira, passado o entusiasmo inicial de Angola, cedo se aperceberam de que Portugal estava num beco sem saída, isolado e ridicularizado por tudo e todos. Mesmo assim, deram o seu melhor e consentiram ao regime treze longos anos para que a questão ultramarina fosse resolvida. Mas, tanto Salazar como Marcelo, foram incapazes de contrariar os interesses de uma clique “patriotiqueira” (Eça de Queiroz) de ultra direitistas que tinha muito a perder com qualquer espécie de mudança. Mais ainda, apesar do seu esforço, esses militares, uma minoria dentro da totalidade de oficiais envolvidos na guerra, notaram que estavam a ser alvo de uma descredibilização para depois serem culpabilizados pela derrota inevitável. O próprio general Spínola refere este triste expediente no seu livro “Portugal e o Futuro”.
Perante a aproximação do abismo para que Portugal estava a ser lançado, tornava-se urgente derrubar o governo antes que forças políticas, tão revolucionárias como incontroláveis, o fizessem. A demora poderia resultar no banho de sangue preconizado pelas teorias mais radicais. É bom que não se esqueça esse pormenor.
Mesmo assim, como era previsível, não foi possível evitar os desmandos que se seguiram. Porque os portugueses não estavam minimamente preparados para a democracia. E nem sequer é preciso escrever uma tese de doutoramento de cinco mil páginas para o provar… Nessa conformidade, todos sabiam que, por culpa da repressão feroz do anterior regime, toda e qualquer mudança iria lançar o país às feras. E foi o que aconteceu: elas surgiram de imediato, vindas principalmente de exílios dourados ou vermelhos!
Mesmo nesse ambiente conturbado, do qual alguns (poucos) militares são também responsáveis, foi possível, com altos e baixos, entregar o poder a quem de direito: à sociedade civil. E sem derramamento de sangue.
O que se passou nos mais de trinta anos que se seguiram não é culpa dos militares. Deve-se à incompetência e cupidez da classe política. Será de perguntar: o que é que os militares que marcharam para Lisboa na madrugada de 25 de Abril de 1974 têm a ver com todo o imenso cortejo de escândalos vergonhosos que envolvem a classe política e seus compadres?
O que se está a passar é puro oportunismo para sacudir a água do capote, deturpar a História e atirar com poeira aos olhos dos portugueses.