Quem não sabe o que fazer, em vez de telefonar, vá rezar para a igreja.
Também não resolve nada mas, pelo menos, não incomoda ninguém.
Na palidez do amanhecer, a brisa aviva os carvões das fogueiras e abate-lhes o fumo espesso, que rasteja entre as pessoas e as coisas, ocultando-lhes o contacto com a terra. Tudo flutua estranhamente, numa atmosfera irreal que mais afasta a consciência do quadro que quase recusa a admitir. Os tições em brasa são a única pontuação no cinzento geral da manhã.
Daniel Gouveia – “Cartas do Mato”
É com uma prosa desta qualidade, que Daniel Gouveia nos dá de presente o seu segundo livro “africano”, que nos transporta, mais uma vez, ao âmago da Guerra Colonial (o primeiro livro intitula-se “Arcanjos e Bons Demónios”).
Poder-se-á dizer que é mais um livro a falar dessa guerra. Mas o que já não se poderá dizer, é que seja um livro a mais.
Com efeito, uma guerra sofrida durante treze anos, espalhada pelos territórios imensos das antigas colónias de África, na qual participou mais de um milhão de seres humanos (contando com os guerrilheiros), terá fatalmente muito para contar de ambos os lados. Todavia, por mais que se conte, muito mais ficará por dizer. Haverá sempre, portanto, este ou aquele aspecto que vale a pena referir e que não pode cair no esquecimento.
Foi sobretudo uma guerra de desgaste, travada quase sempre em regiões longínquas e estranhas, onde os nossos combatentes enfrentaram, para lá do inimigo, grandes dificuldades em suportar os efeitos de um clima quase sempre tórrido e desgastante. Guerra traiçoeira, de contornos pouco claros e com grandes variações de intensidade. Intensidade esta que variava de local para local, de dia para dia e, digamos mesmo, de pessoa para pessoa. E uns tornaram-se mais homens enquanto outros se tornaram mais bichos...
Mais do que a descrição das "aventuras" militares vividas intensamente pelo então alferes Gouveia, temos nesta obra toda a vivência de um cidadão que, não fugindo aos perigos e horrores da guerra, nem por isso deixou de ser quem era: alguém com grande sensibilidade e bom senso; alguém que soube manter, ao mesmo tempo, uma grande serenidade e senso crítico.
O ministro da Defesa passa revista às Tropas
Imagem retirada do blogue "Quarta República"
A NOITE DOS GENERAIS
Já noite, diante do televisor, ouvia as últimas notícias. Parecia um filme. A história iniciava-se com uma entrevista do subdirector do Colégio Militar (CM), na qual este revelava uma prática, desde há muito corrente, no que toca aos alunos homossexuais. Para defesa dos jovens nessas condições, chamavam-se os pais ou encarregados de educação e sugeria-se que o aluno em causa fosse retirado colégio.
1.a Perplexidade – Como é que os responsáveis do CM se apercebem da orientação sexual dos alunos?
Não sendo, seguramente, o resultado de uma declaração do próprio (ou da própria), é admissível que essa percepção seja decorrente do comportamento do aluno(a), à vista de colegas ou de membros do corpo docente. Se esses comportamentos (afectos ou assédio) são detectados, não podem ser permitidos (ou ignorados), ocorram eles entre alunos de sexo diferente ou do mesmo sexo. Assim sendo, a atitude do CM, tendo em atenção que aí funciona um INTERNATO, parece ser absolutamente sensata e de louvar.
2.a Perplexidade – O Ministro da Defesa (MD) discorda desta visão do problema e manda recados ao general Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) pelos OCS.
Do pensamento do MD sabemos, apenas, que estaria preocupado com a violação de preceitos constitucionais. Não invocou, por exemplo, que o CM tinha um critério diferente, na apreciação de manifestações de afecto/assédio, quando se tratava de situações passadas entre alunos de sexos diferentes. Se houvesse registo de casos destes, então, sim, poder-se-ia falar de um duplo critério, funcionando em desfavor dos homossexuais. No entanto, em caso nenhum, se justifica, logo no início da questão, tornar público o desacordo com o general CEME.
3.a Perplexidade – O MD poderá ter exigido ao CEME medidas administrativas que poderiam violar outros direitos e deveres – do subdirector do CM e do próprio CEME – levando este a apresentar a sua demissão.
4.a Perplexidade – O Presidente da República, que se saiba (e costuma saber-se tudo), achou normalíssima a situação e aceitou o pedido de demissão do general CEME. O Presidente da República – que é o Comandante Supremo das Forças Armadas e não perde uma oportunidade para discorrer sobre todos os assuntos, da UE à mochila do refugiado – ainda não achou que se justificasse qualquer referência ao caso CM-CEME.
Chegados a este ponto, a Nação apercebe-se, com tranquilidade, de que estamos em presença de um caso de somenos importância. Nada que se compare a uma promessa de um par de tabefes, este sim, um caso de magna relevância e urgente resolução.
Acho que foi neste ponto do filme que adormeci.
Fui, então, sacudido pela entrada em cena do general CEMGFA. Inconformado com o decorrer dos acontecimentos, o CEMGFA desloca-se ao Restelo e manifesta a sua intenção de, do mesmo modo, bater com a porta. O MD pede calma, lembrando a necessidade de protecção da Instituição Militar. Está, de resto, em curso, o processo de selecção que conduzirá à indigitação do novo CEME.
Convocados 4 tenentes-generais do Exército para falar com o MD, cada um deles, ao ser abordado, declara a sua indisponibilidade para assumir a função de CEME, por não admitir ter de pôr em execução as medidas que o anterior CEME julgara indignas da sua condição, a menos que o MD se demita prim...
O estrondo de um trovão fez-me abrir os olhos. Sonhara.
David Martelo – 12Abr16
(1) Título de um antigo filme português com António Silva
Fazer circular estas imagens na Internet é pura maldade.
Não se faz!
Imagem recebida por correio electrónico.
Os lambe-cus
“Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço».
Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores, os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc. ..
Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso. Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada.
O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas. Ninguém gostava de um engraxador.
Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu.
O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu.
Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu.
Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing. Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo.
(…) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional.
O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês.”
Miguel Esteves Cardoso, in “Último Volume”
Aqueles que se assustaram com a revelação do que se passa na realidade no mundo dos grandes e poderosos devem, a partir de agora, sentir-se mais seguros.
Só falta esperar que a Justiça cumpra o seu dever.
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