CONTRA OS ABUSOS DO PODER
VENHAM DONDE VIEREM
Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007
Para quem gosta de ler

Neste livro, Zita Seabra, fazendo lembrar Virgílio a conduzir Dante Alighieri pelos caminhos tenebrosos do Inferno, guia o leitor até às profundezas mais recônditas do PCP. Na sua prosa escorreita e de leitura agradável, a autora mostra-nos o seu percurso político dentro “do partido” para onde entrou aos 17 anos e ao qual dedicou, com generosidade, entusiasmo e militância, mais de vinte anos da sua vida.
Trata-se de uma descrição muito pormenorizada e cheia de interesse, onde nos é revelado tudo ou quase tudo que o cidadão comum gostaria de saber sobre esse partido. Partido esse que, a par do heroísmo de muitos dos seus militantes na resistência ao salazarismo, não passava de um mundo dominado por uma doutrina política em avançado estado de fossilização e onde imperava o dirigismo, o cinismo, a hipocrisia, a prepotência e a bajulação servil. Um mundo onde uma minoria de dirigentes explorava sem escrúpulos a ingenuidade dos seus militantes.
Mais interessante ainda é o desvendar da figura algo sedutora, fascinante e misteriosa de Álvaro Cunhal. Personagem essa que, ao longo do livro, se vai revelando egocentrista, implacável, vingativa e sinistra…
Claro que há que se dar um certo desconto a toda a obra. Em última análise, é a versão de uma mulher que foi expulsa do PCP. Porém, tudo o que está escrito faz muito sentido e encaixa perfeitamente naquilo que sabemos de outras fontes e pela nossa observação.
Contudo, o que mais impressiona, é o facto, a todos os títulos intrigante, de uma mulher inteligente como Zita Seabra ter levado vinte anos a descobrir aquilo que 93% dos portugueses descobriu logo a seguir à revolução dos cravos: que Álvaro Cunhal e o seu partido não vinham trazer nada de bom para o País. É verdadeiramente espantoso como não enxergou um sem número de barbaridades que lhe passaram mesmo em frente do nariz. Por isso, o livro poderia muito bem chamar-se “Ensaio Sobre a Cegueira, Segundo Zita Seabra”…
Mas há mais. Zita Seabra ainda hoje não entendeu que Cunhal não estava interessado em implantar o comunismo em Portugal. Estava apenas empenhado em fazer um serviço aos seus superiores do PCUS. Veio única e exclusivamente para criar dificuldades aos EUA e seus aliados, e entregar as colónias ao poder soviético. Zita Seabra não vislumbrou que os avanços e recuos da revolução correspondiam aos avanços e recuos da descolonização. Não entendeu que o verão quente de 75 não passou de uma encenação para americano ver. Não reparou que a queda do PCP (sem tiros e perante a indiferença da URSS) se deu a escassos14 dias depois da última independência, a de Angola. Não deu conta de que o 25 de Novembro estava mais que combinado.
Zita Seabra, pelo que nos conta neste livro, não entendeu nada de nada.
Que tal tenha acontecido, já é de si pouco abonatório. Mas que tenha escrito um livro a contá-lo é, no mínimo, anedótico. Faz lembrar aquele homem que se gabava: «Há cães mais inteligentes que o dono. São raros, mas eu tenho um».
De
maremoto a 16 de Agosto de 2007 às 17:15
Eh!Eh! Pois não sei se terá sido uma multa se uma coima...não se pode confiar nas noticias dos jornais, não é?
Quanto ao livro da Zita Seabra, e à sua autora, concordo plenamente com o que escreve.Mas a vida é assim... fica o testemunho para aqueles que ainda hoje não repararam que o mundo se modificou e que se os ideais por que lutaram tivessem vingado...bem estariamos todos mortos, não era?
De
tron a 17 de Agosto de 2007 às 19:45
é bom que alguem mostra os podres
Caro Vouga,
Como muito bem sabe, concordo em absoluto com o seu entendimento do chamado PREC - aliás, já escrevi sobre isso há uns tempos - daí que não possa concordar com a sua observação sobre a cegueira de Zita Seabra. Não, ela não sofre de cegueira! Do que ela sofre é de oportunismo agudo elevado à máxima potência.
Zita Seabra jogou ontem com a ignorância dos Portugueses, quando era comunista, e joga hoje com a papalvice " de todos nós; ontem vendia gato, hoje vende lebre ou vice-versa; ela tem é de estar a ganhar e, claro, escreveu um livro com tudo aquilo que os Portugueses anti-comunistas (que são a mairia esmagadora) desejavam ver escrito! Fica por cima, volta à ribalta, é de novo falada e até ganha uns cobres.
Não gosto da Zita Seabra. Não.
Não é por ter sido comunista que não gosto dela, mas por sem qualquer tipo de pudor, ter atraiçoado o comunismo! Não gosto de traidores, sejam eles de que cor política sejam.
O traidor atraiçoa hoje tal como o faz amanhã sem qualquer tipo de obstáculo.
Não faz mal nenhum ter sido comunista; o que faz mal é ter sido comunista e ter passado para um partido completamente de direita; ter passado para um partido de direita e ter passado a "cuspir no prato" onde comeu.
Gosto de gente vertical e vertebrada. A Zita Seabra é uma senhoreca invertebrada e, por isso, tudo o que disser é mentira e de pouco valor, para mim.
Caro Luís Fraga
A sua opinião, embora diferente da minha (na minha há muito de irónico...), é respeitável. E não discordo dela de modo algum. Eu diria que é uma observação frontal. Sendo a minha enviesada propositadamente por mor do humor.
Só não concordo consigo num pequeno pormenor. Não considero que Álvaro Cunhal, Zita Seabra e outros seus seguidores sejam comunistas.
Para mim, PCP é uma coisa, comunismo é outra.
Transcrevo um comentário enviado por E-Mail:
Caro Amigo:
Gostei da sua certeira crítica ao livro da Zita Seabra e, mais do que isso, do alerta profundo que está subjacente à existência das "cegueiras" ideológicas de todos os que se deixam arrastar/"aparelhar" para fanatismos.
Seria interessante um estudo psicanalítico à postura/"cegueira" da Zita que se reclama de culta e inteligente.
Conhecia-a em Coimbra ....
Um forte abraço amigo do,
Manuel Prazeres Pais
Caro Amigo Fernando Vouga,
Tomei boa nota da sua visão extremamente crítica de Zita Seabra, da autora mais do que da matéria do seu livro, ouso crer.
Naturalmente que ela é legítima, embora a ache excessiva. Julgo que muita gente que a critica não dá o devido valor ao seu acto de afrontamento da hierarquia do PCP, muito anquilosada na sua doentia fidelidade à ortodoxia moscovita ante-gorbacheviana. Ela foi capaz de arrostar com a hostilidade de um comité central, unido numa manifestação de ódio e de rancor para com quem poucos anos antes era vista como heroína, ardente defensora da doutrina comunista.
Levou tempo a romper com a ilusão comunista, sobretudo com a perversão que dela fizeram os Partidos Comunistas no Poder, em todo o lado em que a doutrina se implantou, o que, de si mesmo, já denuncia alguma anomalia interna. Creio que muitos dos que criticam Zita Seabra não teriam coragem suficiente para enfrentar a situação de rotura ideológica por que ela passou. É preciso procurar avaliar o que terá sido o acordar da consciência de todos aqueles que viveram anos a fio debaixo de um grande embuste ideológico.
Muitos saíram discretamente da Organização e desapareceram num anonimato obscuro e triste, sem revelarem as suas críticas, sem actos de contrição, outros trataram de se abrigar em agremiações de presumida proximidade ideológica, outros ousaram denunciar as práticas antigas com as quais longamente compactuaram e isso certos ortodoxos, de dentro ou de fora daquelas igrejas laicas, não perdoam e daí que surja toda essa agressividade especial contra Zita Seabra, ainda mais, porque ela se aproximou logo de seguida ao PSD de Cavaco Silva, então visto como uma espécie de para-fascismo, encarnação dos malefícios da Direita, pura e dura, salazarista e outros delírios de uma certa retórica comum das correntes filo-comunistas ou pseudo-socialistas, que, hoje, com Sócrates, aprovam tudo o que antes abominavam em Cavaco Primeiro-Ministro.
Enfim, desculpe-me a extensão do comentário e alguma aspereza de linguagem, que não se lhe dirige ao meu amigo, obviamente, nem a ninguém em particular, mas a muita gente, no geral. As opiniões diferem, neste como noutros casos, mas o importante é a intenção de nos esclarecermos uns aos outros, acertando e errando, com naturalidade, sem pretensão de estarmos possuídos da verdade irrefutável, coisa que em Política soa logo a loucura.
Ainda a propósito das revelações de ex-comunistas portugueses, não resisto em referir o depoimento de António José Saraiva, no prefácio que escreveu, na reedição em 1983, de um seu livro de 1960, «Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes», que a Gradiva republicou em Setembro de 1996. Aí se encontra uma breve mas pungente reflexão das razões de uma dissidência ideológica insanável, irreversível, que AJS corporizou, com enorme lucidez, sua característica, de resto, patente em muitos outros seus escritos de cunho político-filosófico. Vale bem a pena a sua leitura meditada.
Um abraço.
Caro António Viriato
Obrigado pelo seu comentário e, sobretudo, pelo cuidado com que foi elaborado. Não sou pessoa de concordar com tudo, mas acho seu ponto de vista perfeitamente aceitável e correcto.
Um livro como este pode ter várias leituras e ser abordado de vários ângulos. Eu explorei mais os aspectos pessoais ligados à "excessiva" entrega a ideais, sejam eles políticos ou religiosos. Porque são "excessivamente" perigosos.
Nestes casos, prefiro o silêncio à gritaria. Questão de feitio, talvez...
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