Lamego em festa

Hoje é a grande noite das festas da Cidade de Lamego, a terra que me viu nascer. Festas em honra da Nossa Senhora dos Remédios, a padroeira da cidade.
O texto que se segue foi retirado do livro de contos "Travessia" de Costa Monteiro (Editorial Escritor, Novembro de 1966)
A romaria começa no dia sete de Setembro. Pela tardinha, sai de casa a família Fonseca, juntamente com vizinhos e amigos da terra. Enquanto dançam ao som do tambor e da gaita-de-beiços, fazem a pé os quatro quilómetros que os separam da festa. À cabeça da Albertina, a cesta com o farnel. Às costas do Jerónimo, pendurada na volta da bengala, a trouxa com as mantas para passar a noite, que em Setembro são frias. O indispensável garrafão de tinto revezava-se nas mãos dos filhos, um de cada vez, com todo o cuidado para não se partir.
Chegados à cidade, assentam arraiais onde haja espaço para abancar e ver o fogo. Comida parte da merenda, molhadas as gargantas, os velhos ficam pacientes a tomar conta da bagagem, a ver a festa, os foguetes, as bandas de música e os Zés Pereiras, a fazer tremer as paredes com as batidas nos enormes bombos. Os novos e respectivos namoricos, a cantar e a dançar, desaparecem misturando-se com a multidão em festa. Cotovelada aqui, empurrão acolá, rompem a custo, avenida acima, em direcção à escura mata dos Remédios...
No dia seguinte, alvorada de foguetes. Há que subir o escadório até à igreja, para cumprir as promessas. A Albertina e a Rosa dão umas quantas voltas de joelhos ao altar-mor e o Jerónimo compra uma estante (estampa) da Virgem que coloca na fita do chapéu para comprovar a sua devoção. Comido o resto da merenda debaixo duma árvore, toca a regressar à cidade para assistir à majestosa procissão de triunfo.
Anunciada por foguetes, sai da igreja das Chagas, percorrendo a cidade até Santa Cruz, uma imponente procissão de cenas bíblicas a acompanhar cinco enormes carros alegóricos, cada um deles puxado por juntas de bois ajaezadas a preceito. No último carro, domina o cortejo a imagem virgem coroando a popa de uma elegante barca forrada a cetim azul, a barca da vida. Andores carregados de anjinhos, muitos deles de cabeças caídas, vencidas pela fadiga e pelo sono. No final, o inevitável pálio levado pelos notáveis da terra.
De João Raposo a 7 de Setembro de 2007 às 23:51
Assim era mas já não é.
A "festa" actual é uma cópia das "festas" que se fazem de Norte a Sul.
Tipicidade nula (o romeiro do farnel e dos ranchos há muito desapareceu).
Ás 2h da manhã do dia 8 a cidade está deserta...
Quanto à procissão, já não há "luta" para levar o pálio...
É o "progresso".
Tive um colega na Escola Primária de Lamego de apelido Raposo... Foi nos anos 40.
Pois caro amigo, quiçá conterrâneo, foi com muito pesar que li o seu testemunho. Mas o mundo é mesmo assim, trocam-se uns males por outros. Mas a vida continua. E Lamego, uma cidade milenar, vai continuar a ser Lamego. Pelo menos enquanto não começarem a urbanizar o parque dos Remédios e seu escadório .
Um abraço
De João a 8 de Setembro de 2007 às 17:40
http :/ www.mamarrachos-douro.blogspot.com /
Veja como se destrói o que tão bem conheceu!
Veja alguns dos resultados da incultura, sofreguidão do lucro fácil e estupidez.
E festa de que gosto e ja assisti tambem a linda procissao. Voce e natural de uma terra muito bonita!
Parabens.
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