CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008
Quadratura do Círculo

 

            Há muito tempo, mesmo muito tempo, que não ouvia da boca de um Governante algo que me agradasse tanto. Estou a falar do Presidente da República, Professor Aníbal Cavaco Silva que, na sua mensagem de Ano Novo, fez uma referência algo crítica aos rendimentos escandalosos de certas estrelas de primeira grandeza do nosso firmamento empresarial.
            Nada mais justo e oportuno numa época em que as desigualdades crescem despudoradamente. Enquanto que os ricos passam pela crise e assobiam para o lado, os pobres desesperam com a diminuição dos seus rendimentos, ao mesmo tempo que assistem impotentes à subida dos preços de tudo e mais alguma coisa, com especial incidência para os bens essenciais. E como se tal não fosse suficiente, habitação, emprego, saúde, justiça, educação e segurança, passaram à categoria de ficção delirante para o cidadão comum.
            Porém, não deixa de ser curiosa a opinião dos moralistas de serviço da “Quadratura do Círculo”. Para estes senhores bem instalados na vida, Cavaco Silva foi demagógico porque, segundo eles, a crise económica não se deve aos generosos proventos dos tais gestores de empresas. Segundo eles, em termos percentuais, a despesas com essas pessoas acaba por ser pouco significativa em relação ao cômputo geral. 
            Talvez seja. Mas esquecem-se que há aqui uma injustiça gritante: é monstruoso que se peçam sacrifícios de toda a ordem aos menos favorecidos, enquanto que uns tantos, quase sempre os mesmos, acumulam fortunas de nababo.
            Mas é bom que todos se lembrem, governantes e governados, de que não se pode manter a paz social numa Nação com os olhos postos apenas nas estatísticas e em meros critérios economicistas. É preciso ter em conta a moralidade do sistema. Caso contrário, a revolta do povo será uma questão de tempo. E foi disso, dos valores morais a ter em conta, de que falou Cavaco Silva. Porque eles são a pedra angular de qualquer governação. A crise tem de ser suportada por todos, sem excepção. Como diz o ditado, “ou há moralidade ou comem todos”.


publicado por Fernando Vouga às 23:15
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8 comentários:
De Henrique M M S Alves a 4 de Janeiro de 2008 às 22:51
Excelente ! Identifico-me plenamente com este artigo.
Só tenho pena que isto não venha a ter divulgação nos orgãos de comunicação social de primeira linha.


De António José Trancoso a 5 de Janeiro de 2008 às 01:32
Caro Monteiro Vouga
O Presidente da República, que não sendo surdo, ouvindo os clamores de uma esmagadora maioria de deserdados, censura, e bem, a obscena assimetria que se revela relativamente aos instalados nas órbitas dos poderes protegidos.
Mas...é bom que se não esqueça que o ressurgimento e incremento dessas oligarquiias privilegiadas muito devem ao 1º Ministro Cavaco Silva no decurso da sua governação.
Assim, para além da actual e necessária admoestação, uma "mea culpa" não seria descabida...


De António José Trancoso a 5 de Janeiro de 2008 às 01:44
Permita-se-me, ainda, uma pequena adenda que se consubstancia na sabedoria popular:
"Há, e sempre haverá, quem faça o mal e a caramunha."
E como a memória é curta...lá vamos, cantando e rindo, tendo mais do mesmo.


De Luís Alves de Fraga a 5 de Janeiro de 2008 às 22:08
Fernando Vouga,
Concordo consigo, embora tenha dúvidas se o autor de tão judiciosas palavras não terá mudado de nome. Terá ele passado à condição de Frei e adoptado o nome de Tomás?
A minha questão - necessariamente cínica - resulta de ter curiosidade em saber se Cavaco Silva terá abdicado de todas as pensões a que tem direito, se terá optado por passar a viver da reforma de Chefe de Estado quando deixar de o ser.
É que eu vivo da mesma reforma que o meu caríssimo Amigo e ela, cada ano, vai ficando mais reduzida e não tenho mais nenhuma. E pior do que eu estão, por certo, todos os reformados com pensões bem mais pequenas do que as nossas!
Era bastante conveniente que o Presidente da República usasse da sua política de influência para fazer publicar diplomas legislativos efectivamente moralizadores... Mas não vai usar, lá isso não!


De Fernando Vouga a 6 de Janeiro de 2008 às 19:13
Caros José Trancoso e Luís Fraga

O importante é que o senhor disse o que disse. O que, a avaliar pelos moralistas da dita "Quadratura", deixou muita gente incomodada. Apesar de o PR não ter denunciado os privilégios dos governantes e deputados no que respeita a aumentos e regalias.
E a nós compete fazer aquilo que em táctica militar se chama "explorar o sucesso" (neste caso o "sucedido"...).


De José Tavares a 19 de Janeiro de 2008 às 13:38
Exmos Srs Coroneis
Aprecio bastante o que escrevem nestes blogs bem como alguns dos comentários que aqui são deixados.Pena é que (penso eu) não sejam lidos por aqueles a quem são dirigidos ou são seu objecto . É um pouco como os prgramas de opinião pública emitidos quer pela TV (SIC Notícias ,RTPN) quer pela rádio(TSF, Antena 1). Os telespectadores e ouvintes vão dando conta dos seus estados de alma e por aí se ficam. É uma espécie de catarse. Não invalida porém que o não devam fazer. É que isto, como dizia Guerra Junqueiro é um país de acomodados, tristes e cinzentões( mais ou menos isto).
É um pouco do sofre e abstem-te.Só quando o povo voltar à rua e correr com esta súcia que nos desgoverna poderemos voltar a pensar em melhorar a nossa qualidade de vida e comerçarmos a sentir que somos nós quem decidimos o nosso destino. E os políticos comecem a aprender que apesar de "eleitos" estarão sob avaliação contínua e terão de prestar contas. Desculpem ,especialmente o Sr Cor Vouga, por lhe ocupar este seu espaço,mas foi mais uma expressão do estado de alguém que todos os meses ver minguar a sua pensão de reforma para qual descontou durante a vida activa. Saudações. Zé Tavares



De Fernando Vouga a 19 de Janeiro de 2008 às 19:26
Caro José Tavares

Obrigado pelo seu comentário. E não tem nada que pedir desculpa. Terei até muito gosto em continuar a ler os seus comentários. É para isso que tenho este blogue.


De António Viriato a 19 de Janeiro de 2008 às 23:58
Caro Fernando Vouga,

O PR falou com acerto, ainda que com atraso e, por certo, de consciência pesada, pelos seus anos de PM, em que consentiu numerosos abusos, que depois não mais pararam de se ampliar, com responsabilidades várias repartidas pelos dois principais partidos deles directamente beneficiários.

Tudo isto é sabido. Mas foi importante que o PR o tivesse agora reconhecido e foi lamentável ver determinadas vedetas mediáticas, supostamente socialistas e social-democráticas, em lugar de denunciarem o mal, virarem-se contra o Mensageiro. Melhor todos os ficámos a conhecer, se é que ainda tínhamos ilusões sobre a sua inconsequência política e, sobretudo, ética.

Um abraço,

AV_19-01-2008


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