CONTRA OS ABUSOS DO PODER VENHAM DONDE VIEREM
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008
Dilemas tortuosos - 1ª parte

 

 

            Acabei de ler um livro, cujo título e autor não vou revelar por enquanto. Em dada altura, enquanto o lia, senti-me perplexo com uns tantos dilemas de ordem moral. Enfim, questões ardilosas de resposta difícil…
            Nesta nota, e na seguinte, quero colocar o leitor perante duas situações hipotéticas (altamente improváveis) e pedir-lhe a sua opinião. O que antecipadamente agradeço.
            Penso que não se vão arrepender de colaborarem comigo nesta espécie de investigação.
 
            E aí vai a primeira situação:
 
            Imagine-se o leitor que é agulheiro numa estação da CP e vê um comboio a dirigir-se para um grupo de cinco trabalhadores da linha-férrea. Estes, não se apercebendo do perigo com o barulho das suas ferramentas, serão inexoravelmente mortos. Há, no entanto, uma possibilidade de os salvar. Basta ao agulheiro accionar a sua agulha e desviar a máquina para outra linha. Porém, se o fizer, haverá um outro trabalhador que será colhido e morto.
  
            O que pensam os meus queridos leitores? Será que, para salvar cinco vidas, o agulheiro tem legitimidade para deixar morrer o trabalhador da outra linha?


publicado por Fernando Vouga às 23:27
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9 comentários:
De António Viriato a 14 de Fevereiro de 2008 às 00:40
Caro Amigo Fernando Vouga,

Se formos pelo argumento do mal menor, a primeira opção parece ser mais defensável.

Se raciocinarmos em termos absolutos, arriscamo-nos a ficar paralisados, mas talvez de consciência tranquila, por não termos interferido no destino daquelas vidas em perigo...

Creio que esta última opção estará mais de acordo com os paradigmas do pensamento moderno...

Um abraço.



De Luís Alves de Fraga a 14 de Fevereiro de 2008 às 23:41
Meu Caro Amigo,
Antes do mais, e sem sobra para dúvidas, tentaria avisar por qualquer meio o maquinista, admitindo que este estava desatento ao que poderia acontecer (que raio de maquinista!!!!). Depois, esgotados todas as hipóteses de chamar a atenção do maquinista, optava por desviar a composição para a via onde houvesse menos estragos ( esta medida talvez levasse o maquinista a aperceber-se da situação anormal e a tentar travar antes do acidente). Em última análise, tentaria, também, procurar chamar a atenção para todos as potenciais vítimas.
De qualquer modo, a sua proposta deixa pouca margem de manobra para um pobre agulheiro.
Um abraço


De António José Trancoso a 15 de Fevereiro de 2008 às 02:40
Caro Monteiro Vouga
Os dados do dilema proposto, pressupõem que o Agulheiro dispunha de alguns segundos para decidir.
Tenha-se em conta que, ao aproximar-se de uma estação ferroviária, a composição teria, forçosamente, de abrandar a velocidade de serviço.
Admita-se, ainda:
Que o Maquinista, por incúria inadmissível, ou, por dificuldades, ou diversões, no seu campo visual, não se apercebe do obstáculo (humano) existente no percurso programado;
Que, do equipamento do Agulheiro, não faz parte a corneta, cujo toque de aviso, sobrepondo-se aos ruídos ambientais, alertaria, todos os trabalhadores, para o perigo eminente.
Assim sendo, o surpreendido Agulheiro, teria de, rapidamente, tomar uma das maiores decisões da sua vida.
Se não sofresse um bloqueio paralisante, na circunstância, em termos quantitativos, desviaria a máquina para a linha em que só um indivíduo trabalhava.
Porém, se este fosse um seu familiar, ou, um grande amigo, os cinco estariam, muito provavelmente, condenados.
Admitamos, ainda, que os seis trabalhadores lhe eram igualmente próximos.
Aí, perder um, seria menos mal, que perder cinco.
Mas, esta decisão, infringindo a programação de circulação pré-estabelecida, poderia vir a provocar uma colisão de uma desprevenida composição, cheia de passageiros, causando uma enorme catástrofe.
A ocorrer-lhe tal eventualidade, os cinco voltavam à baila.
Em tão pouco tempo, com a tensão de adrenalina no máximo, a sensata ponderação das muitas variáveis, seria, praticamente, impossível.
Fizesse o que fizesse (ou não fizesse) em condições normais, o destino do Agulheiro, seria o do Hospital Psiquiátrico.
No entanto, se, falho de valores, ansiasse por uma garantida vaga, e respectiva promoção, na carreira de Maquinista, a oportunidade não poderia ser desperdiçada, e,assim, com todas as consequências referidas, o isolado trabalhador ia desta para outra.
No meio de tudo isto, onde cabe a Legitimidade?


De nana Lopes a 16 de Fevereiro de 2008 às 03:07
Que triste dilema.
Qualquer escolha leva vidas.
No caso, com racionalidade, salvasse a maioria matando um.


De Nana Lopes a 16 de Fevereiro de 2008 às 19:39
Obrigada e volte sempre.
Amo a literatura portuguesa e acho seu povo muito delicado.
Maceio é de uam beleza impar!!


De Dulce a 17 de Fevereiro de 2008 às 02:01
Já tinha lido este post e não consegui responder. Mas porque quer mesmo saber o que eu faria, olhe, acho que escolhia desviar a rota do comboio... e depois não sei o que seria da minha sanidade mental... :(


De Mauro Maia a 22 de Fevereiro de 2008 às 11:27
Bem, o dever moral de qualquer um é o de salvar vidas se o pode fazer. Percebo onde se situa o dilema: será a questão numérica de valorizar quando estão em causa vidas humanas? Serão 5 vidas mais importantes do que 1? E se fosse Bach sozinho numa linha e 5 futebolistas na outra? O valor intrínseco de Bach (a a sua unicidade e relevância) é superior ao valor intrínseco de cinco futebolistas (de entre os milhares que existem)? Será a vida humana contabilizável? É dce lembrar que Médicos, quando estão perante situações (como catástrofes naturais ou guerras) muitas vezes têm de fazer semelhantes opções, apesar de ou até por causa do Juramento de Hipócrates: uma vida que se pode salvar imediatamente permite salvar mais, uma vida cujo tratamento seja demorado impede o salvamento de outras. A opção tem de ser maximizar o número de vidas salvas. Neste caso concreto, perante este raciocínio, as cinco vidas deveriam ser salvas em detrimento da apenas uma. Mas podemos realmente fazer essa opção, neste caso? O médico não é o responsável pela situação de vítimas das pessoas, limitia-se a gerir os números que tem. O agulheiro será directamente responsável pela morte do trabalhador solitário caso mude a linha. Sê-lo-á, na mesma medida, se não mudar a linha, se deixar os acontecimentos fluirem como se ele não estivesse presente? E pode ignorar? Para não fugir à questão, tentaria alertar, por todos os meios que me fossem possíveis, os trabalhadores para a aproximação do comboio. Mas não mudaria a linha, aí estaria directamente a causar a morte de alguém (o trabalhador solitário) mas não provocaria directamente a morte dos 5 trabalhadores (não tinha sido eu a provocar a aproximação do comboio). Questão mais premente: uma rocha resvala montanha abaixo. Se for para a esquerda mata cinco pessoas, para a direita 1 pessoa. Um dos grupos será colhido pela rocha. Nós podemos decidir (por meio de alguma engranagem a la MacGuyver) se a rocha vai para a direita ou para a esquerda. Não sabemos qual dos grupos morrerá se nada fizermos mas podemos decidir se quisermos qual será.


De maremoto a 24 de Fevereiro de 2008 às 11:12
O valor absoluto da vida, como nós o concebemos no ocidente e na nossa cultura, coloca-nos perante um problema sem solução ( no caso apresentado)
Não fazer nada leva, inevitavelmente, a questões de consciência, no domínio do se.... se eu tivesse feito assim, ou se ... etc.
Não existindo solução ou solução que possa ser quantificada - esta é melhor do que aquela - resta-nos não ser interveniente e ser Deus ( qualquer das soluções são decisões divinas, absolutas e do reino do livre arbítrio , consideradas "destino" ou assim tinha que ser)
Se temos o nosso destino nas mãos, será numa agulha de comboio. Nenhuma leva ao paraíso , nem à absolvição, porque nenhuma delas existe.
Uma elimina cinco vidas.
Outra apenas uma.
Como resultado divino tanto faz. Ele está-se nas tintas. Se não morrerem hoje, morrem amanhã.
Então porque é que nos devemos preocupar com questões morais inexistentes?

Que tal virar a agulha da linha e quando o comboio for a passar voltar a virá-la, fazendo o comboio descarrilar!!!???

E o comboio leva gente ?
pode ser que não morram.


De António José Trancoso a 27 de Fevereiro de 2008 às 00:01
Maremoto

Bem visto!


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