
Há dias, o senhor Ministro da Defesa foi entrevistado na Televisão sobre o recentemente propalado descontentamento dos militares. Não o ouvi, já que o meu masoquismo não chega a tanto e a curiosidade ainda menos. Já sabia de antemão o que iria palrar.
Soube mais tarde que, como esperava, o senhor referiu, à guisa de arma de arremesso, a aceitação à partida, por parte dos militares, de determinadas obrigações especiais, bem como de restrições às suas liberdades fundamentais.
Esqueceu-se no entanto de mencionar que essa aceitação faz parte de um contrato que envolve duas partes. Por um lado, os militares comprometem-se a não fazerem uso de certos processos reivindicativos que, embora legais, não se entendem por adequados às Forças Armadas; por outro, o Estado compromete-se a não se servir dessas limitações para, pura e simplesmente, os explorar, ou mesmo desprezar.
Ora, o que se tem verificado é que, ao longo de décadas, os militares, a par de terem de cumprir à risca obrigações que derivam da “Condição Militar”, vão perdendo regalias e poder de compra. Porém, ao mesmo tempo, outros servidores do Estado, talvez por disporem de grande poder reivindicativo, continuam a não serem atingidos nos seus interesses. E, como se tal não fosse suficiente, a classe política, juntamente com toda a multidão dos boys que se sentam à sua gamela, come e bebe à tripa forra, indiferente às dificuldades que se avolumam nos estratos mais carenciados do nosso povo, nos quais os militares estão a ser, cada vez mais, incluídos.
Nesses termos, é mais que evidente que o Estado não está a cumprir a sua parte do contrato. À boa fé dos militares, responde com toda a sorte de artimanhas para se furtar às obrigações a que se comprometeu.
É altura de perguntar: será que os militares ainda têm alguma dúvida de que deixaram há muito de estar obrigados a cumprir a sua parte do contrato?
De António José Mendes Dias Trancoso a 5 de Novembro de 2008 às 19:37
Caro Monteiro Vouga
De facto ( e/ou, de fato) andam nove milhões e tal de portugueses a ser esmifrados para encher a obscena gamela orçamental.
Preocupamo-nos, com razão, com o crescimento dos assaltos praticados pela pequena ladroagem, e, desses marginais e ilegais episódios, a comunicação, dita social, enche as primeiras páginas e os seus televisivos horários nobres.
Porém, acerca dos que, "legal e continuadamente", se apropriam dos magros proventos de quem, diariamente, se sacrifica para os obter, impera um repugnante pudor.
Os ladrõezecos, e bem, vão para o isolamento das prisões; os outros, os "legalizados", deliciam-se no isolamento...dos seus condomínios privados de luxo.
Pode ser que um dia, em nome da honradez, uns e outros partilhem o adequado espaço..
Um abraço.
De
Robles a 7 de Novembro de 2008 às 19:38
Desta vez é caso para dizer que as armas estão em boas mãos, os militares é que não...
Um abraço
Roberto robles
De
ALG a 8 de Novembro de 2008 às 10:47
Ser Militar hoje em dia é de facto desprestigiante, e não é de agora, já se tem vindo a agravar há alguns anos (décadas)!
Eu sou um dos que abraçou a carreira das Armas, com 19 anos, por vocação, e que Jurou defender a Pátria até com o sacrifício da própria vida. Estive no Activo durante os melhores anos da minha vida (24) e presentemente estou na situação de Reserva, principalmente por não me rever nas actuais FA's.
Sou do tempo em que quando nos atrevíamos a "reclamar" melhores condições, os chefes não só não viam essa situação com bons olhos, como tomavam as devidas medidas, leia-se medidas disciplinares na maioria dos casos, dizendo alto e bom som, que lhes cabia a eles zelarem pelos Subordinados, cabendo-lhes serem os chefes do "sindicato" dos Militares.
Como não fizeram caso chegou-se hoje a este estado de coisas e só, sublinho só, quando tocou aos Oficiais é que começaram a falar alto e bom som.
Não acredito em "passeios" e em relação ao Associativismo Militar também sou muio céptico e na Partidocracia em que vivemos pouco poderá ser feito para alterar a conjuntura, afinal dizes todas as categorias profissionais estão a ser afectadas e deprestigiadas, excepto a dos incompetentes que nos (des)governam (veja-se o exemplo do Governador do Banco de Portugal).
Quanto a estas declarações são mais um alerta, mas que cairão em saco roto, afinal pouco ou nada mais se poderá fazer e ameaças de atitudes mais "duras" não são levadas a sério e como uma Revolução está fora de questão, nada mais resta!
Engraçado constatar como alguns dos Senhores Generais, mudaram de atitude ao longo destes anos, e alguns deles enquanto estiveram no Activo nada fizeram para alterar a situação! É que as FA's não são só Generais e Oficiais (embora verdadeiramente sejam o que interessa), os Sargentos (classe a que pertenci) há muito que sentem no dia-a-dia este degradar da condição Militar mas, como não têm tido voz, têm sido ignorados por completo.
Farto deste estado de coisas, por sentir que a minha vocação estava em questão, resolvi voltar a estudar e procurar novos horizontes, afinal a família não tem que ser penalizada pela escolha profissional quando o Estado que jurámos defender é primeiro a não nos tratar condignamente, basta dizer que não cumpre o que legislou sobre várias questões, e sinceramente já com catorze anos de mesmo posto (não acontece a nenhum Oficial), já estava farto!
Tanto quanto sei, nada de anormal se vai passar, com os Militares do Activo a cumprirem as suas missões com normalidade, apesar de sentirem a ingratidão da Pátria que juraram defender.
Quanto a mim, carrego sempre o "estigma" de ter sido Sargento do Exército Português, apesar de Licenciado em Direito pela FDL, Curso de Especialização do ISCPS, Pós-Grauação Avançada em Direito Fiscal, etc., é que afinal quando se fala em FA´s, reduz-se tudo aos Oficiais, os principai responsáveis por se ter chegado a este ponto!
Bom fim-de-semana!
Caro camarada
Obrigado pelo seu comentário onde exprime a sua opinião. Opinião essa que merece todo o meu respeito.
Quanto à sua condição de ex-sargento, não me parece que seja motivo para se lamentar. Amtes pelo contrário. Acho até que deve ser motivo de orgulho. Porque, na tropa, a dignidade não se mede pelo posto, mas pelo desempenho. Sempre tive muito mais consideração e respeito por um bom soldado raso do que por um mau general.
Quanto ao estigma, não se preocupe. Ele só existe nos olhos dos que sofrem de miopia mental.
De
ALG a 9 de Novembro de 2008 às 23:05
Agradeço a gentileza das suas palavras!
Peço desculpa por ter de algum modo "desabafado" neste seu espaço virtual, mas sabe, estou mesmo farto de ver tão maltratada a condição de Militar, por parte desta (triste) sociedade em que nos estamos a tornar.
Para que fique claro, teho orgulho de ter servido no Exército e como Sargento, só lamento é não ter pasado à Reserva mais cedo, uma vez que já há muito tempo se adivinhava que se iria chegar ao que temos hoje.
Quanto ao "estigma" ele deriva das inúmeras vezes em que apreciam o meu curriculum vitae, e nem imagina o que já ouvi e observei, quando referem o facto, é como diz "só existe nos olhos de quem sofre de miopia mental" mas que me tem privado de algumas oportunidades profissionais.
Cumprimentos
Caro Fernando Vouga,
Os muitos afazeres têm-me afastado da visita diária aos blogs que gosto de consultar. Cá estou respondendo à sua chamada.
Não há dúvida que esse termo «contratual» entre Forças Armadas e Estado é fundamental e é por isso que quando não existe se verificam revoltas, quarteladas, golpes e outras insubordinações. Note, como bem sabe, que os Estados europeus onde a democracia é mais estável pagam consideravelmente bem aos seus militares, sendo exigentes com eles.
Por que será que nunca se ouviu falar de crise de falta de pilotos-aviadores na Real Força Aérea Sueca? E, contudo, aquela Arma é das mais modernas e eficientes de toda a Europa. E na Suíça? Saber-se-á que tem generais, sargentos e outros graduados militares? E só falo destes que são Estados com estatuto de neutralidade, quer dizer, onde deveria parecer que os militares eram gente de segunda... Mas não são! São de primeira! Compreenderam o tal «contrato».
E a França? A França que festeja o seu dia nacional com uma gradiosa parada militar? Não está a honrar e dignificar as suas Forças Armadas, dando-lhes publicidade? Mas paga-lhes a peso de ouro.
Concordo com o meu Amigo... O que falta neste país não são «gameleiros» para comerem à gamela; falta é sentido de justiça e, acima de tudo, honestidade, muita honestidade.
Um abraço
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