
Tem-se notado ultimamente, talvez devido ao agravamento da crise económica, uma animosidade crescente contra as Forças Armadas. Animosidade esta que, cinicamente, os sucessivos Governos vão alimentando com a cumplicidade do silêncio. No fundo, estão a ser transformadas no bode expiatório de todos os males que hoje afligem os estratos sociais menos favorecidos — já que os outros continuam a viver “à tripa forra”. Em traços largos, grita-se por todo o lado que, se não fosse o 25 de Abril de 74 — uma irresponsabilidade e cobardia — hoje viveríamos no paraíso. Que os militares de carreira quebraram o juramento de fidelidade à Pátria, debandando de uma guerra de que tinham medo.
Parece-me assim, oportuno avivar a memória das cabeças mais agitadas, para que passem a apontar as suas setas aos verdadeiros responsáveis pelo descalabro corrupto de que enferma a nossa (des)governação actual.
Embora haja hoje, pasme-se pelo delírio, quem diga que a guerra estava quase ganha, não restam dúvidas de que estava condenada à partida. Basta ver o que se passou no Vietname e se está a passar hoje no Iraque e no Afeganistão. E a maioria os mais altos responsáveis pelo regime salazarista, de mãos dadas com os que mais beneficiavam dele, sabiam-no, ao ponto de baldarem os seus filhos à guerra. Para tal, usavam as suas influências pessoais e as mais torpes artimanhas, como sejam compras de testes aos dactilógrafos, radiografias e exames médicos falsificados, cursos no estrangeiro.
Os militares de carreira, passado o entusiasmo inicial de Angola, cedo se aperceberam de que Portugal estava num beco sem saída, isolado e ridicularizado por tudo e todos. Mesmo assim, deram o seu melhor e consentiram ao regime treze longos anos para que a questão ultramarina fosse resolvida. Mas, tanto Salazar como Marcelo, foram incapazes de contrariar os interesses de uma clique “patriotiqueira” (Eça de Queiroz) de ultra direitistas que tinha muito a perder com qualquer espécie de mudança. Mais ainda, apesar do seu esforço, esses militares, uma minoria dentro da totalidade de oficiais envolvidos na guerra, notaram que estavam a ser alvo de uma descredibilização para depois serem culpabilizados pela derrota inevitável. O próprio general Spínola refere este triste expediente no seu livro “Portugal e o Futuro”.
Perante a aproximação do abismo para que Portugal estava a ser lançado, tornava-se urgente derrubar o governo antes que forças políticas, tão revolucionárias como incontroláveis, o fizessem. A demora poderia resultar no banho de sangue preconizado pelas teorias mais radicais. É bom que não se esqueça esse pormenor.
Mesmo assim, como era previsível, não foi possível evitar os desmandos que se seguiram. Porque os portugueses não estavam minimamente preparados para a democracia. E nem sequer é preciso escrever uma tese de doutoramento de cinco mil páginas para o provar… Nessa conformidade, todos sabiam que, por culpa da repressão feroz do anterior regime, toda e qualquer mudança iria lançar o país às feras. E foi o que aconteceu: elas surgiram de imediato, vindas principalmente de exílios dourados ou vermelhos!
Mesmo nesse ambiente conturbado, do qual alguns (poucos) militares são também responsáveis, foi possível, com altos e baixos, entregar o poder a quem de direito: à sociedade civil. E sem derramamento de sangue.
O que se passou nos mais de trinta anos que se seguiram não é culpa dos militares. Deve-se à incompetência e cupidez da classe política. Será de perguntar: o que é que os militares que marcharam para Lisboa na madrugada de 25 de Abril de 1974 têm a ver com todo o imenso cortejo de escândalos vergonhosos que envolvem a classe política e seus compadres?
O que se está a passar é puro oportunismo para sacudir a água do capote, deturpar a História e atirar com poeira aos olhos dos portugueses.
Caro Fernando Vouga,
A síntese que apresenta é linear e clara, e, acima de tudo, verdadeira.
Verdadeira é também a análise que faz das "culpas" atribuídas aos militares as quais não passam, afinal, de uma "cortina de fumo" para, qual máscara militar, ocultar os verdadeiros culpados, que o meu amigo identifica com toda a clareza. Foram e são os políticos deste país quem conduziu e conduz Portugal à situação em que se encontra. Os militares nada têm com isso. Essa é a verdade nua e crua.
A sua análise, embora feita num meio de comunicação "aberto" a toda a consulta, carece de maior visibilidade. Carece e merece.
Um abraço de felicitações
Caro Luís Fraga
Muito obrigado pelas suas palavras.
Tenho andado um tanto afastado das lides castrenses. Mas não posso ficar indeferente à tentativa de deturpar, dolosamente, a História pós 25 de Abril. Se não escrevesse esta síntese, como lhe chama e muito bem, rebentava!
Caro Vouga,
É bom clarificar a verdade e não deixar que se façam deturpações intencionais. Mas seria bom evitar controvérsias entre militares, lavando a roupa suja em público. Há que manter a serenidade, não se deixar conduzir por elementos estranhos que possam pretender desprestigiar os militares. Os valores que sempre nortearam a ética militar devem ser mantidos e reforçados, mas há elementos que os estão a destruir. Isso não é bom para Portugal, principalmente num momento destes.
Abraço
João
Caro João Soares
Mais uma vez lhe dou razão. De facto, temos alguns camaradas que ajudam à festa. Assim, os políticos nem sequer têm de se empenhar muito para que o prestígio das as Forças armadas fique de rastos.
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