
Finalmente que apareceu um livro a explicar, numa linguagem acessível mas arrasadora, como é que Portugal chegou ao descalabro financeiro que nos aflige a todos. Escrito por um juiz jubilado do Tribunal de Contas, homem de grande prestígio nacional e internacional, é um livro de leitura obrigatória.
Não valendo a pena, por essa razão, resumir o seu conteúdo, aproveita-se, no entanto, para se transcrevem algumas passagens mais significativas e também mais chocantes.
«Nunca existem responsáveis e nada acontece.»
«As leis são hoje mal feitas e podem facilmente ser furadas. O próprio Estado ou abre excepções casuísticas à lei ou habilmente a contorna, escapando assim não poucas vezes ao controlo prévio de legalidade por parte do Tribunal de contas.»
«É que o descontrolo das contas públicas em 2010 não pode ser apenas explicado pela crise económica e financeira mundiais, ou por ataques especulativos ao euro.»
«Fazer obra a todo o custo para agradar aos eleitores»
«Este quase estado de necessidade em que o Estado se colocou, de fazer obra atrás de obra, sem custos orçamentais imediatos, chamando o sector privado a financiar tudo o que podia dar dividendos políticos, deu obviamente origem a maus negócios para os contribuintes.»
«Por que razão no nosso país, ao contrário do que em regra sucede nos demais, todos os contratos de PPP têm estado condenados, desde o início da sua execução, a processos quase automáticos de renegociação, com gravosas consequências para os contribuintes?»
Da leitura desta obra, acaba por se concluir que o Estado cobra impostos para os esbanjar sem controlo e, na prática, sem prestar contas. Nada é transparente, as artimanhas para enganar tudo e todos são muitas e imaginativas. E o cidadão comum, esmagado pelo poder de um Estado que há muito deixou de ser pessoa de bem, não tem defesa contra os abusos desta autêntica tirania. Com a agravante de se ter instalado uma verdadeira PIDE para a cobrança de impostos.
Em suma, sendo justo que os cidadãos paguem as despesas do Estado, já não será aceitável terem de pagar todos os erros, incúrias e desonestidades dos governantes. Perante o actual estado de coisas, onde impera a imoralidade, em que uma grande parte do dinheiro dos nossos impostos é mal gasto — ou mesmo roubado —, é bom que se perceba que a fraude fiscal passou a ser, no mínimo, moralmente aceitável.
De António Trancoso a 15 de Novembro de 2010 às 01:33
Meu Caro Monteiro Vouga
Felicito-o por este seu tão oportuno post.
Plenamente de acordo com as suas conclusões, aqui lhe envio um abraço.
De Pica-Miolos II a 16 de Novembro de 2010 às 13:44
Senhor Coronel
Acabei de ler o livro do Juiz Carlos Moreno.
Sem o dizer explicitamente, só um cego não "lê" a pouca-vergonha subjacente às negociatas lesivas dos dinheiros públicos.
Há quem diga que o TGV tem de ir em frente, porque...as comissões já foram depositadas, nos paraísos fiscais, nas contas do costume...
Não faz mal ! O Zé Pagode paga e continua a votar na ladroagem, também, do costume !
Um bom dia para si .
De Jacaré Tem Dente a 22 de Novembro de 2010 às 13:22
A falta de transparência não é a mãe de todas as corrupções, mas sim a FALTA DE CULTURA...um povo que vota da maneira que vota, só tem aquilo que é a consequência da sua "cultura" !
Um povo que já em si é corrupto -África, Índia Brasil - não pode votar de outra forma que não seja em paralelo com a sua forma de pensar.
Ou não será ?
Corrupção, conspiração, traição... esta sempre foi e ainda é a nossa "história".
Caro Jacaré
O seu ponto de vista é respeitável. Vá lá o diabo saber onde está a maleita.
No entanto, é bom que se reconheça que as coisas lá fora não são assim muito melhores, o que, obviamente, não me consola nada, porque o que me preocupa é o que se passa por cá. E posso muito bem com o mal dos outros.
De Jacaré Tem Dente a 24 de Novembro de 2010 às 15:09
~Caro Senhor
Não lhe falo do que se passa "lá fora" porque nada se pode infelizmente comparar e, como sabe, Portugal não é infelizmente comparável EM NADA.
Nacionalismo é uma coisa e análise é algo de bem diferente.
Porém, deixe-me só dizer-lhe que o mal dos outros é também o nosso e da forma mais directa; é que somos dependentes e sem sequer de informação ou de Cultura.
Por isso, quando me diz que pode bem com o mal dos outros, acho que não será tanto assim.
Caro senhor
O seu ponto de vista continua a ser respeitável, embora eu não veja as coisas assim tão negras. Não sou nacionalista, mas também não sou muito optimista no que concerne aos países ditos mais civilizados. Prestei serviço vários anos anos "la fora", em países tidos por prósperos e bem conceituados e, salvas as devidas proporções, vi muita coisa pouco abonatória. No fundo, não são muito diferentes de nós. Acredite. Então, se olharmos para a Itália (para não sair da UE), em termos de corrupção e crime organizado, estamos conversados.
É verdade que, num mundo cada vez mais interdependente, o mal dos outros acaba por nos bater quase sempre à porta. Porém, ao dizer que posso bem com esse mal, quero apenas salientar que nos devemos concentrar no nosso. Porque, em última análise, somos nós que temos a obrigação de o solucionar.
De Jacaré Tem Dente a 26 de Novembro de 2010 às 15:51
Caro Senhor.
Penso que infelizmente as coisas são mesmo negras e bem negras, o passado não volta nunca mais e as incapacidades de hoje projectam-se visivelmente em resultantes bem definidas e que nos mostram como vai ser difícil sentarmo-nos à mesa, quanto mais não seja para podermos conversar...!
O exemplo que me oferece fazendo alusão à Italia, pois não será o melhor exemplo, há outros "chefes de fila" nesta nossa Europa e sobre os quais Portugal nada sabe sequer copiar e cujo "orgulho" não nos consente aceitar certos bons princípios vindos de fora.
Penso, Senhor Fernando Vouga, penso que não seremos em nada capazes de fazer face... porque já perdemos a face, somos incultos e pouco sérios, recusamos o modernismo e não sabemos sequer negociar os nossos interesses.
Perdemos a velocidade do tempo e as nossas regiões estão endurecidas pelo descalabro da ignorância.
Grato por me consentir frequentar o seu Blog.
Jacaré Tem Dente.
Caro senhor
Não quero de modo nenhum interromper este nosso diálogo. É para mim um prazer trocar impressões com alguém que não vê o mundo exactamente como eu. Decerto que tivemos percursos diferentes e, embora não conheça o seu, sei de antemão que o meu não é melhor nem pior.
E a grandeza da mente humana está mesmo nisso: aceitar humildemente a opinião dos outros e tirar dela lições para utilização futura.
Numa coisa estamos de acordo: as coisas vão muito mal e tendem a piorar.
De Jacaré Tem Dente a 29 de Novembro de 2010 às 11:24
Creia que admiro a sua tolerância (coisa que se vai infelizmente perdendo na Cultura portuguesa), o céu de Portugal é bem cinzento e só ventos que digam qualquer coisa (não os do poeta Alegre!) é que poderão limpar a atmosfera poluída dessa nação.
Estamos à deriva e os cravos de Abril murcharam, a Europa desenvolveu meios que os portugueses esbanjaram e Cavaco não foi nem é assim tão bom como se pensa.
Transparência (…é mais “à hue et à dia” do que outra coisa) o que conta é tudo o que possa ser fácil, acessível, confortável e que dê para que cada um possa falar de si.
Claro que teremos que ser nós a resolver os nossos próprios problemas, certo, mas o que é facto é que os “meios mentais nacionais” para o podermos fazer são por enquanto precários e... em relação aos países evoluídos, Portugal tem duas guerras de atraso.
Todos os povos que foram massacrados pela guerra evoluíram.
De Jacaré Tem Dente a 3 de Dezembro de 2010 às 11:30
Agradeço a sugestão que me ofereceu, li, gostei imenso, e a clareza desta apresentação tem com ela a firmeza da razão… é um verdadeiro alicerce de razões que confirmam toda a “pobreza de génio” a que certos seres humanos conseguiram chegar.
Enquanto que o comunismo dos Russos foi para eles “um fim”; este mesmo comunismo foi para os chineses “um meio”, e hoje…,Eureka, aqui temos o resultado!
O pacifista Gandhi levou tempo a chegar… a Europa perdeu toda a sua desenvoltura e a América pensa que o Dólar é ainda o “nervo” de todas as guerras…
Gostei imenso deste Blog e com sua licença o transmito aos meus amigos correspondentes.
Um abraço.
Jacaré Tem Dente.
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