Por razões que agora não vêm ao caso, existe na nossa cultura um grande respeito pelos mortos, para não dizer um medo exagerado e ancestral. Ninguém sabe ao certo o que nos irá acontecer depois da morte e há mesmo quem avance com teorias catastrofistas em que castigos, tão inimagináveis como cruéis, visam os que em vida não respeitaram os figurinos recomendados.
Exceptuando aqueles que têm no paraíso umas dúzias de virgens (quiçá de perna aberta) ansiando pela sua chegada, todos nós tememos o desenlace final. E se tal não bastasse, a ansiedade do desconhecido e o nosso inato instinto de conservação fazem o resto para nos infernizarem a vida.
Dentro desse contexto, bem lá no fundo, todos nós acabamos por sentir uma grande relutância em criticar aqueles que já nos deixaram, como se eles, tendo perdido a vida, passassem a ter à sua mão uma extensa panóplia de perniciosos poderes sobrenaturais.
E os políticos não fogem à regra. Falecidos que sejam, à beira da cova são alvo dos maiores louvores, mesmo vindos daqueles que passaram a vida a torpedeá-los e a cortar-lhes na casaca. Choram abundantes torrentes de lágrimas, lamentam pungentemente o seu desaparecimento, como se o país, pela sua falta, perdesse a razão de existir.
Mais ainda, governante que nos deixe demasiado cedo ou seja, antes de nos presentear com a sua inevitável incompetência, é tratado como salvador da Pátria. Se ele não tivesse morrido tão cedo, tudo seria bem diferente e para melhor. E o nosso bom povo continua ainda a prantear-se pelo prematuro desaparecimento de D. Sebastião, D. Pedro V, Sidónio Pais, só para referir o passado menos recente...
Parece assim vir a propósito recordar o general George Armstrong Custer, que morreu em combate em 1876 na famosa batalha de Little Bighorn. Para lá dos seus feitos heróicos, ficou também famoso pela sua insólita frase “os únicos índios bons são os índios mortos”. Dentro desta lógica, será altura de nos interrogarmos: se fosse ainda vivo, o que é que diria dos nossos governantes?
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