
Acabei agora mesmo de inventar um antiquíssimo provérbio chinês que diz que “a humanidade não consegue sobreviver sem sexo e sem segredo”. Porém, sendo o sexo quase sempre praticado num segredo recatado e pacífico, poderemos classificá-lo como um “bem necessário”, enquanto que o segredo propriamente dito, pelo que tem de insidioso, cai na reles categoria de um “mal necessário”, tal como se diz da guerra.
Não me parecendo necessário defender a necessidade do sexo, afigura-se-me conveniente tecer algumas considerações sobre a necessidade do segredo. Mas não é preciso escavar muito fundo. Desde que o mundo é mundo que não faltam interesses antagónicos. Há sempre quem não se encolha perante a necessidade de passar a perna ao semelhante e daí não estar muito virado para dar publicidade às suas intenções. Por isso, todos acabam por guardar segredos e pelas mais variadas razões. Se o assaltante não anuncia o golpe, o potencial assaltado não revela a combinação do cofre. Mais ainda, na mãe natureza, muitos dos seres vivos usam e abusam de disfarces — o seu expediente para guardar em segredo a sua presença — para deitar a mão, digamos assim, à vítima incauta que lhe passe por perto, ou para não ser visto pelo predador que se aproxima.
Mas o segredo, tal como acima referi, é quase sempre insidioso. Legítimo ou ilegítimo, corre o risco de ser utilizado sem controlo e servir de arma poderosa para o crime, injustiças e toda a sorte de trapaças. E, como se tal não fosse bastante, os próprios dirigentes ao mais alto nível, por mais moralistas que sejam, não fogem à regra. Por dá cá aquela palha, convencidos de que podem viver na impunidade, botam da boca para fora as broncas mais variadas, preparam golpes baixos, falam mal dos congéneres, trocam as voltas aos adversários.
Todavia, o segredo, tal como o sexo, tem os seus perigos. Mais cedo ou mais tarde, tudo acaba por se saber. Ou porque vem à luz uma criancinha ou porque alguém metido no circuito dá com a língua nos dentes.
Vem tudo isto a propósito do já famoso Julian Assange e do seu não menos famoso “Wilkileaks”. Muitos dos segredos revelados são razoavelmente credíveis e estão a cair sobre a comunidade governante como um bombas em noites de “blitz” londrino. Parece que ninguém vai escapar.
Convenhamos que a revelação de segredos de Estado, por mais imorais que sejam, é um acto de pura irresponsabilidade e imprudência. Pode causar danos inimagináveis porque, ao que parece, não tem havido qualquer cuidado na selecção das notícias. Quanto mais não seja, porque muitas pessoas inocentes podem sofrer consequências desastrosas. Turistas, funcionários de embaixadas, homens de negócios podem a partir de agora ser alvo de violência quando se deslocarem para países que se sintam ofendidos e onde o sentido de humor não abunde.
De qualquer forma, algo de aproveitável se pode retirar deste acontecimento. De hoje em diante os líderes mundiais terão que ter mais cuidado com o que dizem e com o que fazem. E até poderá acontecer que optem por uma maior transparência e as relações internacionais se façam de uma forma mais saudável. Mais ainda, a sensação de impunidade que muitas vezes está na origem de muitos ilícitos cometidos por governantes, é capaz de ir por água abaixo. Porque se a justiça não for capaz de os condenar, a opinião pública não lhes perdoará de certeza.
De Jacaré Tem Dente a 16 de Dezembro de 2010 às 10:15
Uma verdade tem sempre com ela elementos de mentira e vice-versa.
A cada vez que se descobre uma verdade, logo nos surge uma outra mais adiante e ainda por revelar, camuflada e imprevista, mordaz, suja!
Um comunicado Oficial é sempre feito para fazer passar uma mentira e nunca faltarão Comunicados Oficiais…pode crer.
Estas “duas irmãs” (a verdade e a mentira) andam mesmo de mãos dadas e são parecidíssimas com a “mãe” Injustiça e com o “pai” Crime, parecenças de família...
O sexo e o segredo têm com eles o “S” de segurança e nos dias que correm temos mesmo que “sair cobertos”!
Caro amigo
Na prática, a verdade não é aquilo que acontece mas aquilo em que se acredita. Se alguém acredita que se podem fazer cinco cadeiras ao domingo e com o mesmo professor, então isso, para ele, é verdade.
E é por isso que Péssimo Tsé Tung, o grande sábio investigador chinês afirmava: "uma mentira repetida mil vezes passa a ser verdade".
De António Trancoso a 17 de Dezembro de 2010 às 09:19
Caro Monteiro Vouga
Permita que o felicite pela reflexão que faz sobre este candente assunto.
Um abraço.
Embora como cidadão o segredo diplomático me seja incómodo, pois deixa-me sem saber que destino me estão a preparar os governantes, como militar, reconheço as suas razões apontadas com mestria no texto que nos oferece. Não sei quem a firmava, mas dizia-se, nos meus tempos de rapaz, que o segredo era a alma do negócio. Ora, se as relações internacionais são um negócio, e partindo da bondade dos negociantes, a revelação de segredos de Estado estraga negócios a muita gente... o que representa um acréscimo aos riscos em que vivemos.
Um abraço, meu Amigo.
Caro amigo
Obrigado pelas suas palavras.
Creio que viveríamos num mundo melhor se os segredos diplomáticos forem reduzidos ao mínimo indispensável e tidos como excepção e não como regra. Creio também que esta "bomba", em última análise, contribua para uma maior decência no relacionamento entre os Estados.
De Polo Simples a 20 de Dezembro de 2010 às 09:42
…há quem nada diga falando de tudo e quem tudo diga, falando de nada!
Não serão os militares uns dos primeiros a fabricar segredos?
As relações internacionais – e bem o sabemos - são muito mais do que um negócio, são um “trust” e a grande diferença reside aqui mesmo…
O que é um “trust” e o que é um negócio?
“A revelação dos segredos de Estado estraga negócios a muita gente”, …este ponto de vista só depende do ângulo de visão do seu observador…tudo é relativo, ou não será?
Quanto ao “acréscimo aos riscos em que vivemos”, os riscos eliminam-se (!), para que servem os especialistas?
«Não serão os militares uns dos primeiros a fabricar segredos?»
Caro amigo
Obrigado pelo seu comentário.
Para começar, os militares são apenas o braço armado de uma pollítica. E não é preciso explicar muito para se perceber que o segredo faz parte integrante da sua actividade. Ou será imaginável que divulguem ao inimigo as suas posições, efectivos, armamento, planos, ordens e por aí fora? Mesmo em tempo de paz, em que não se sabe concretamente quais são as ameaças, revelar tudo pode incentivar uma agressão. Por exemplo, se revelarmos que em determinado local uma bomba pode paralizar todas as comunicações do país, é de temer que alguém se aproveite dessa informação. A menos que o agressor nos mande um relatório circunstanciado sobre o assunto para nos podermos defender. Algo terá de ficar escondido para que mais ninguém possa avaliar concretamente o nosso potencial. Há que dificultar a contabilidade e criar um grau de incerteza nas avaliações para dissuadir os aventureirismos armados.
Por outro lado, no que concerne aos segredos de Estado, nem tudo é ilegítimo. Em muitos casos o Estado pode e deve, por vezes, ocultar os seus propósitos, nomeadamente para ter liberdade de escolha ou para preparar convenientemente os seus dossiês. Todos nós, em casa ou no emprego, fazemos isso. Por exemplo, não revelamos as prendas de Natal para potenciar o efeito de surpresa...
Num ponto concordo consigo. O segredo tem os seus inconvenientes e não são poucos. Se fosse banido, viveríamos num mundo muito melhor. Mas as coisas são como são e não como gostaríamos que fossem.
De Polo Simples a 20 de Dezembro de 2010 às 12:46
Caro Senhor Fernando Vouga, os militares não são só o braço armado da política, por vezes são muito mais do que isso e outras vezes são muito menos... !
Os conselheiros mais próximos de todos os chefes de Estado são na sua grande maioria militares, vejamos o que é um Adido Militar, vejamois quem são os Quadros de todos os Serviços, sejam estes secretos ou dos que toda a gente sabe, e até mesmo nos gabinetes privados de todas as Repúblicas, como sabe, são os militares que estão em grande maioria a "aconselhar (?)" os responsáveis.
Nunca será possível administrar, governar, prever ou até mesmo gerir, sem segredo...é evidente que assim o seja e quem pensar ou desejar o contrário, é porque vive num outro plano.
Os militares são peritos em comunicação "privada", cripto de ideias e aplicação de sistemas...e mais coisas, nunca passando de apenas um executivo.
Pois é claro que o segredo é e será sempre "a alma do negócio", mas porquê ?
Como o Senhor o explica e muito bem: é que nem tudo pode ser dito.
Um abraço.
Caro amigo
Sem discordar na essência do que diz, penso que actualmente a influência dos militares nos corredores da política está muito rarefeita. Mesmo nas regiões tradicionalmente dominadas pelo poder militar, caso de muitos países da América do Sul, a situação está a inverter-se.
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