Pequeno ensaio sobre a sabedoria colectiva da ignorância individual...

Thomas Carlyle (1795-1881)
Há dias, um condutor da carrinha de uma sociedade turística confidenciou-me que iria votar num determinado partido, por sinal sem grande expressão eleitoral, pela simples razão de que promete melhorar substancialmente as regras da passagem à reforma. Algo que lhe traria, dentro de pouco tempo, vantagens significativas.
Instintivamente, não resisti à tentação de lhe explicar que esses partidos, que nunca farão parte de qualquer governo, oferecem tudo e mais alguma coisa porque sabem que as promessas vão ser fatalmente esquecidas. Mas, pela sua cara, apercebi-me de que a minha argumentação não lhe agradou. Penso mesmo que ficou a pensar que o que me fez falar foi a inveja.
Levanta-se assim a questão, agora muito sugerida, de que o voto não deverá em princípio ser extensivo a quem não tenha um mínimo de cultura e discernimento. Com efeito, a democracia tem destas contradições: sendo essencialmente a expressão da vontade da maioria dos eleitores, como se pode confiar em tal maioria se uma grande parte anda alheada da realidade e não sabe o que quer? Ou, usando as palavras de Thomas Carlyle, como confiar na “sabedoria colectiva da ignorância individual”?
A resposta parece difícil. Porém, se tivermos presente que, independentemente da tal cultura e discernimento, todos pagam impostos, a resposta só pode ser uma. Porque não se pode ao mesmo tempo exigir dinheiro e tapar a boca às pessoas.
De 100 Estribeiras a 21 de Maio de 2011 às 16:40
Tocamos o ponto culminante de todas as resoluções: A Cultura!
Quem pouco tem, muito a estende – é como a manteiga – no entanto o resultado leva-nos sempre ao mesmo ponto, erros que se pagam ao preço do metal dourado e verifica-se (até que enfim) que o reflexo é apenas a devolução de uma imagem.
A pergunta que fica é deveras objectiva:
“Como confiar na “sabedoria colectiva da ignorância individual”?
Caro amigo
Toda a gente sabe, incluindo os políticos, que a democracia não é possível somando ignorâncias. Porque, neste caso, a aritmética falha, como se pode ver na fórmula que se segue:
ignorância+ignorância=ignorância
Há que cultivar o povo, dando prioridade à educação e formação profissional. Mas isso não convém aos que mandam nos políticos que nos governam. Porque num povo de doutores não há ninguém para cultivar as batatas e os feijóes de que precisamos para sobreviver. E ninguém munido de um diploma quer trabalhar por um ordenado de miséria.
De 100 Estribeiras a 21 de Maio de 2011 às 19:42
Ignorância mais ignorância, igual a ignorância!
Esta formula é certa mas: “- X - = +” (menos por menos dá mais)
Penso que é só questão de “operação”...
De Javaré Tem Dente a 1 de Junho de 2011 às 22:07
Reparo com frustração que quando se fala de “como confiar na “sabedoria colectiva da ignorância individual”?...esta pergunta faz com que os habituais correspondentes nem ponham aqui o pé neste seu Blog.
Será que isto mexe com eles ou estão todos de férias?
O sujeito parece-me deveras interessante, próprio ao diálogo e assumido pelo valor da ideia, porém, Sr. Fernando Vouga, já reparei que quando se fala de (como o senhor o diz) “cagandistas”; eles aparecem e logo que aborda um autor interessante…tornam-se em invisíveis frequentadores e afinal funestos!
Este seu post parece-me interessantíssimo, e reconhecemos aqui a “falta de pedalada” dos doutores “bloguistas/sem/opinião/definida” que só vêm a Deprofundis quando o brilho do pouco talento que ainda lhes resta lhes dá a alucinação do valor que não possuem.
Gosto deste seu post, acho-o deveras elevado, mas, puxar pela base; já sei…é por vezes frustrante.
Bravo aos seus temas Sr. Fernando Vouga.
Caro amigo
Obrigado pelo seu comentário.
Porém, não estou totalmente de acordo consigo. É óbvio que eu gostaria imenso de trocar impressões com o maior número de interlocutores, mas eles têm todo o direito ao seu silêncio. Algo que me compete respeitar escrupulosamente.
De Jacaré Tem Dente a 2 de Junho de 2011 às 20:17
Bem o entendo e também sei que bem me entende.
Caro Senhor Fernando Vouga, considero a sua abordagem sobre Tomas Carlyle um excelente tema de discussão, de polémica, de debate, entendo que um Blog deverá funcionar num espaço de raciocínio e não de “polimento-a-talentos” já fora de moda; não de vaticínios eleitorais (onde quem “muito” sabe (?) se exprime), nem de probabilistas que a horas vagas nos dão o “toque” das possibilidades entre a esquerda e a direita de um Portugal desnudado e com o qual eles curtem adrenalinas e horas de ócio…
Thomas Carlyle merece a descoberta e a conclusão deste homem é mais do que verdade, é uma evidencia - como confiar na “sabedoria colectiva da ignorância individual”?
Penso que é só por esta razão que os “d r’s” se ausentam do seu Blog; fazem – talvez - parte da sabedoria colectiva a que Carlyle nos faz alusão.
De
maremoto a 4 de Junho de 2011 às 22:13
Mas ao menos o seu interlocutor vai votar. O que geralmente acontece é que as pessoas criticam, mas não votam.
Sendo certo o que diz - os pequenos partidos sem expressão parlamentar não "aquecem nem arrefecem" nas futuras decisões, sempre vão tendo adeptos que os sustentam e que lhes aumentam o ego, mesmo que isso não sirva para coisa nenhuma.
Mas a democracia tem as suas margens, não as podemos eliminar, e os seus custos.
Afinal concordo que os que pagam impostos têm direito à opinião.
A abstenção é que não conduz a coisa nenhuma.
Deveria ser obrigatório o voto.
Caro Maremoto
Obrigado pelo seu comentário, que muito me agradou. Quanto mais não seja, porque há muito tempo que o não via por estas humildes bandas.
O seu ponto de vista é aceitável e talvez o mais correcto.
De qualquer forma, sem o querer contrariar, penso que a obrigatoriedade do voto não resolve grande coisa. Por si só, não transforma um cidadão indiferente em empenhado. Irá às urnas fazer um frete e pode sempre votar em branco ou anular o voto.
Por outro lado, cada vez mais sentimos que as eleições resolvem muito pouco e, a bem dizer, não se escolhe nada. Os pratos estão já servidos pelos partidos de acordo com as suas conveniências e as nossas aspirações continuam para as calendas gregas. Trocando por miúdos, apenas escolhemos em que nádega vamos levar o pontapé.
A não ser que surja uma motivação muito forte, como é hoje a de remover o actual PM a qualquer preço, a abstenção não me parece muito condenável.
Penso que o problema das baixas participações eleitorais se deve principalmente à fraca qualidade dos políticos. Se eles se interessarem verdadeiramente pelo bem comum, e conseguirem o nosso respeito, vai ver que o problema será muito mais atenuado no futuro. E é aí, e não no eleitorado, que deve ser feito todo o esforço...
De
maremoto a 5 de Junho de 2011 às 21:33
É evidente que tem razão, mas os eleitores têm de ser mais responsáveis e conscientes da sua intervenção eleitoral.
Não votar é uma anti-cidadania que considero intolerável, mas que temos de aceitar - no actual quadro juridico.
E depois há aquela questão dos quase milhão e tal de portugueses que já morreram mas continuam a fazer parte dos cadernos eleitorais.( o que faz subir a abstenção - que afinal, se calhar não é assim tão elevada...)
Mas à hora que lhe escrevo hoje (21H32) existe uma nova esperança e uma nova energia. Apesar de tudo os eleitores que pensam pelas suas cabeças - ou que não devem o emprego ao partido - decidiram.
Um abraço.
De It`s now or never a 9 de Junho de 2011 às 00:18
A Sabedoria Colectiva da Ignorância Individual, em Portugal tem tido uma correspondência que parece não espantar ninguém, isto é, de asneira em asneira e de megalomania em megalomania, levou-nos à beira do abismo e a consolidar cada vez mais o nosso humilhante lugar de cauda da Europa...
Caro Amigo,
Curiosa a sua postagem! E, já agora, permita-me uma curiosidade: Sidónio Pais, que foi maçon, tinha na Maçonaria o nome simbólico de Carlyle. Interessante, não é?
Mas vamos ao caso que coloca: votação selectiva ou votação generalizada?
Já em Portugal, quando se aceitava a existência da ignorância e do analfabetismo, houve um método de votação que se apoiava no valor de contribuição paga ao Estado. Era (é) uma possibilidade a considerar: quem mais paga para o Estado, mais e maior direito tem de escolher quem o governa. Não resolve o seu problema, mas separa algum trigo de certo joio e, em boa verdade, afasta muito ignorante da assembleia de voto.
Será uma decisão democrática? Tudo depende do tipo de democracia que se pretende! Ele há tantas!
Um abraço.
Caro Alves de Fraga
O problema reside o facto de a democracia não ser perfeita. Dar mais voz a quem tem mais dinheiro parece-me demasiado perigoso, já que esses senhores dispoem de outras vias para influenciar em seu favor a máquina governativa. E de que maneira!
Sendo assim, prefiro correr o risco de alinhar com a falta da tal sabedoria.
Quanto ao Sidónio, não fazia a mínima ideia. Mas é interessante,,,
De Polo Simples a 12 de Junho de 2011 às 18:46
Sim, mas só que Sidónio Pais fazia parte de UMA CERTA MAÇONARIA e não “A” do tráfico de influencias ou aquela que vai alimentando certas páginas…há que esclarecer que quando se fala de Maçonaria, muitas Lojas mais se parecem com círculos de interesses pessoais…cunhas, relações e ágapes de confraternização…
Caro Polo Simples
Duvido que haja, ou tivesse havido, maçonarias boas. Por mais bem intencionadas que sejam no começo, acabam fatalmente por ser vítimas de pessoas menos honestas que tudo subvertem em seu favor. Não acredite que estejam imunes ao poder do dinheiro, que tudo corrompe.
E desconfio muito dos secretismos exacerbados...
De Polo Simples a 13 de Junho de 2011 às 01:19
Inteiramente de acordo, os escandalos dos anos 90 assim o demonstram...
Será que a maçonaria é "mais uma" sabedoria colectiva em que teremos que confiar ?
Ou uma ignorância individual que teremos que suportar ?
Vamos reflectir sobre "os irmãos" da sabedoria e determinar uma opinião sobre a ignorância de quem neles acredita.
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